domingo, agosto 20, 2017

ONOFRE: CIGARRO, GARRAFA E COMPRIMIDO


Nunca soube o seu nome de família. Todos que o conheciam tratavam-no pelo prenome e o apelido Onofre"Bacalhau”. Alcunha óbvia, era magro, quase transparente. Em chuva de pingos grossos era capaz de caminhar entre eles sem se molhar. Tinha outra característica ímpar. Tinha o estopim muito curto. Aliás, nem tinha: explodia por qualquer motivo.
Proprietário de um barzinho numa rua que começava numa pracinha em frente a antiga venda do Serafim (rua Silva Jardim), descia e depois subia, atravessando o Córrego da Praia. O botequim era ao lado da casa do Tiaca, uma ótima figura, casado com Luzia Narcisa. Raça boa de gente do Calambau.
Vou narrar três histórias curtas do Onofre, duas presenciadas por mim. A terceira, marcou época na cidade.

PRIMEIRA HISTÓRIA: CIGARRO PICADO
Estávamos no boteco tomando cachaça e cerveja. O Bacalhau, além de dono, também participava. A roda estava animada e Onofre não queria ser aborrecido por fregueses. Foi aí que entrou um cliente e indagou: "Onofre, tem cigarro picado?
Resposta do Bacalhau: " só maço fechado. Se quiser, tem Continental, Beverly e Lincoln". O freguês insistiu: será que não dá pra abrir um maço e me vender três cigarros?  Já nervoso, Onofre respondeu: " não dá não e não insista"!!!
Teimoso o comprador insistiu. " Só três Beverly, não quero comprar muito. Estou tentando largar o vício".
De imediato, Bacalhau levantou-se da mesa, abriu um maço, apanhou três cigarros, pegou uma faca bem grande e picou os três, bem miúdos no balcão. Ato contínuo, apanhou a " maçaroca" e colocou tudo no bolso da camisa do insistente e disse raivoso: " toma o cigarro picado. E nem precisa pagar"!!!

SEGUNDA HISTÓRIA: TRÊS GARRAFAS
A segunda história, também passada no botequim, aconteceu com o caminhão de cerveja. Naqueles tempos, não existiam cervejas em lata e tampouco as embalagens descartáveis. Para comprar a bebida, o dono do bar tinha de entregar engradados e garrafas vazias, para repor o vasilhame cheio.
Onofre pediu quatro engradados. O entregador contou o vasilhame e deu falta de três garrafas. Argumentou que em tal hipótese, só podia entregar três engradados. O comerciante argumentou que era freguês conhecido e reporia as garrafas faltantes na próxima compra. O entregador não cedeu.
Na terceira tentativa infrutífera, Bacalhau pegou o vendedor de cerveja pelos ombros e o assentou em uma cadeira, dizendo em seguida:  " já que não pode ser assim e eu não posso ficar sem a bebida, fica assentado aí e espere. Em seguida me chamou para compartilhar a cerveja. Vamos beber três garrafas.
 Quando terminarmos, o engradado estará completo. Assim foi dito e assim foi feito. Bebemos calmamente, apreciando cada gole.

TERCEIRA HISTÓRIA: COMPRIMIDO RUA ABAIXO
A terceira história aconteceu na Farmácia Nogueira. Onofre chegou no balcão e pediu uma aspirina. Estava com uma dor de cabeça terrível. O caixeiro, novo no estabelecimento, pegou o comprimido, deu o preço e indagou solicito: " o senhor quer que eu embrulhe? Resposta imediata do Bacalhau: " não precisa. Eu vou rodando o comprimido rua abaixo" !!!

Aí vão três historinhas. Duas são verídicos. Eu presenciei. A terceira, faz parte do folclore da cidade.
*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o blog Itaúna Décadas em 20/08/2017.
Acervo: Shorpy


JOÃO "COISA BOA": CARROS DE BOI EM ITAÚNA



Morava na rua Direita, hoje Av. Getúlio Vargas, pegado a venda do Josias, pouco abaixo do fim da rua Boavista. Seu sobrenome eu nunca soube. Tais adereços não faziam falta no interior. Às vezes, até complicava.
Tinha uma profissão que exigia competência e o apuro em vários ofícios. Era ferreiro, carapina e carpinteiro. Sabia lavrar uma madeira com maestria. Um pau roliço, com pouco tempo ficava quadrado. No machado, com golpes certeiros e rápidos. Dava gosto vê-lo trabalhar. Sua ocupação principal: fabricava carros de boi, galeotas para cabritos e carretões. Consertava carros avariados, trocava paus de coice", consertava rodas e trocava eixos e cocões. Aliás, nos cocões, residia o segredo dos carros de boi. Bem acertados, fazia o carro cantar com boniteza. Coisa de preceito que exigia prática e competência.
Não gostava dos carroções de rodas raiadas eixos de ferro. Fazia, consertava e trocava rodas. Nos carroções faltava a poesia do carro clássico, de roda maciça, ferrada a cravos feitos na forja e calçamento com aro de ferro, também cravado com peças forjadas.
Trabalhava com machado, engenho de serra, serras manuais enxó, formões, arco de pua, trados e ferro quente.
A roda do carro era uma obra de engenharia. Várias peças de madeira eram aparelhadas no enxó encaixadas umas nas outras, formando um círculo.  Depois dos encaixes e fixação de uma peça a outra, vinha o principal. O arco de ferro, malhado na forja era devidamente dilatado no fogo, até ficar vermelho em brasa.
Hora de colocar o arco na roda. Era a peça que dava fixação final. Encaixada a marretadas, era depois resfriada. O arco encolhia e prensava as peças. Por fim, vinha a fixação dos cravos em toda extensão do arco.
Era um ofício em extinção. O carro de bois transportava tudo e não carecia de estrada. Entrava nas roças, puxava milho, cana, areia, tijolo pedra e tudo mais que fosse necessário. Era o jipe caipira.
João "Coisa Boa" fazia jus ao nome. Boa praça de plantão, sempre alegre e prestativo. Oficina aberta, de frente para a rua, sem portões ou porteiras. Carros de boi estacionados na rua direita. Ajudante, só tinha um. O próprio filho que dele herdou a fidalguia e a profissão.
Uma excelente figura que marcou época em Itaúna. Para finalizar: tive a honra de conviver com ele e privar de sua amizade. Melhor não podia ter sido.


*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o blog Itaúna Décadas em 20/08/2017.
Acervo: https://cdn.serounaosei.com/wp-content/uploads/20170803114332/carro-de-boi.jpg



terça-feira, agosto 15, 2017

ROSÁRIO PARA TODO SEMPRE


Estive no fim de semana em Itaúna. Bem recebido por vários e fiéis amigos, dedicamos todo o dia do sábado, 15/07/2017, a " jogar conversa fora". Um dia inteiro de " toilette mental", sem compromisso com esposas e com horários. Exercício contra a demência e o temido Mal de Alzheimer, que assola gente de nossa idade. Deveremos fazer outras reuniões e exercitar com mais assiduidade o bom e velho hábito de conversar.
Diferentemente de outras viagens a Itaúna, um dos meus cicerones levou-me gentilmente a vários lugares da cidade, nos quais pude identificar pontos marcados do meu passado e ainda, observar o progresso do município.
Estivemos no Morro do Rosário e lá, surpreendi-me com uma estátua do Cristo Redentor, que me pareceu uma novidade marcante. Nada contra o Cristo e sua efígie. Sou católico (desleixado) e mesmo que não fosse, não teria a temeridade de insurgir-me contra o Jesus de Nazaré. Afinal, a favor dele existem mais de um bilhão de criaturas, fiéis à religião ensinada por ele. Se tal não bastasse, sempre é bom lembrar que ele também é venerado pelos muçulmanos, que somam mais um bilhão e meio. Sem dúvida, o filho de Deus, criado por um carpinteiro meu xará na Palestina, é uma unanimidade.  
Pelo meu anfitrião, fiquei sabendo também que depois que erigiram a estátua do Cristo no alto do Rosário, existem alguns em Itaúna, em vez de chamarem este local histórico de Morro do Rosário, denominação consagrada, com mais de duzentos anos de uso, quer chamar, ou talvez, mudar o local de “Morro do de “Morro do Cristo”.  
 Novidade, no meu sentir, despropositada e bajuladora. Cristo não precisa de salamaleques e tampouco de agrados. Existem estátuas do Redentor em variados lugares, com ênfase para o Rio de Janeiro, lugar onde reina soberano há muitas décadas. Clones existem por toda parte. Até em Belo Horizonte, perdido num bairro distante, depois do Barreiro.
Na cidade maravilhosa, não trocaram o nome do Corcovado, depois da construção da estátua mais famosa da cidade e do Brasil. Por lá, o Corcovado não perdeu seu nome de batismo. O Morro do Rosário em Itaúna tem uma bela tradição. Tradição de festas de Reinado, que se estendiam por quase uma semana, culminando no dia quinze de agosto, data na qual o catolicismo celebra a Assunção de Nossa Senhora. Assunção da mãe de Jesus, levada aos céus por anjos, para fazer companhia ao filho ilustre. Por favor, não troquem o nome do morro. Tenho certeza que nem o próprio Jesus aprovaria a mudança.

*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o blog Itaúna Décadas em 15/08/2017.


domingo, julho 16, 2017

ITAÚNA: CIDADÃOS HONORÁRIOS 1962


CRIAÇÃO DO TÍTULO DE CIDADÃO ITAUNENSE

O Povo do Município de Itaúna, por seus representantes decreta e eu, em seu nome sanciono a seguinte lei:
Art. 1º — Fica criado o título de cidadão itaunense, a ser conferido as pessoas que não nasceram em Itaúna.
Art. 2º — Para a concessão do título, a Câmara de Vereadores designará uma comissão com a finalidade de estudar toda a vida do homenageado.
Art. 3º — O título somente será concedido à pessoa que tenha contribuído com o seu trabalho material e espiritual, para o bem de Itaúna.
Art. 4º — Poderá a Câmara conceder o título de cidadão itaunense a pessoa que tenha se projetado no cenário nacional.
Art. 5º — De nenhum modo será concedido o título de cidadão intaunense a pessoa que, não tenha contribuído de qualquer modo para o progresso ou bom nome de Itaúna.
Art. 6º — Revogadas as disposições em contrário, entrará esta lei em vigor na data de sua publicação.
Mando, portanto, a todas as autoridades que o conhecimento e execução desta lei pertencer, que a cumpra e façam cumprir como nela se contem ou declara.

Prefeitura Municipal de Itaúna, 22 de Maio de 1962
Célio Soares de Oliveira — Prefeito Municipal


PRIMEIRO TÍTULO CIDADÃO ITAUNENSE

O Povo do Município de Itaúna, por seus representantes decreta e eu, em seu nome sanciono a seguinte lei:
Art. 1º — Fica concedido o título de cidadão itaunense aos reverendíssimos padres Waldemar Antônio de Pádua Teixeira e José Ferreira Neto.
Art. 2º — Ficam reconhecidos os grandes benefícios que prestaram a coletividade itaunense.
Art. 3º — Revogadas as disposições em contrário, entrará esta lei em vigor na data de sua publicação.
Mando, portanto, a todas as autoridades que o conhecimento e execução desta lei pertencer, que a cumpra e façam cumprir como nela se contem ou declara.

Prefeitura Municipal de Itaúna, 22 de Maio de 1962
Célio Soares de Oliveira — Prefeito Municipal

JUSTIFICATIVA:

Muitos homens já passaram por Itaúna, construindo indústrias, edificando fábricas, modificando o aspecto de nossa urbs, elevando o nome de nossa cidade.
Muitos que não nasceram aqui, trabalharam para o nosso progresso e deixaram seus nomes ligados a diversos setores de nossa cidade.
No entanto, senhores vereadores, dois nomes estão definitivamente ligados a história de Itaúna e nos corações de todos os itaunenses — Pe. Waldemar Antônio de Pádua Teixeira e Pe. José Ferreira Neto.
O que fizeram?  Não há necessidade de enumerar, desde a casa do milionário a do mais pobre dos itaunenses, que seja patrão ou operário, intelectual ou trabalhador braçal, todos sabem.
Vestem o mesmo hábito e comungam os mesmos princípios, padres no verdadeiro sentido da palavra, verdadeiros mediadores entre Deus e os homens, vivem a aspergir sobre Itaúna as graças de Deus e criar entre seus filhos paz e harmonia.
Devemos –lhes em grande parte, esta nossa formação católica e temos certeza, a mocidade de Itaúna nesta época da J.T. deve grande parte de seus triunfos a estes dois homens de Deus.
Se nada tivessem feito de material, sem nenhum marco de pedra deixassem em nossas ruas, se nada tivessem feito para a beleza externa aparente de Itaúna, ainda assim seriam os seus nomes os mais dignos, os mais merecedores, para receberem o nome de cidadão itaunense.
Padre Waldemar Antônio de Pádua Teixeira: Uma lenda de santidade e todos os corações itaunenses — a nossa população já o considera santo que caminha por nossas ruas, entra em todas as nossas residências, sorri para todas as nossas crianças, conforta a todos os nossos doentes e ama a todos os itauneses, sendo mais itaunense do que muitos de nós que aqui nascemos. Ama Itaúna, ama seus filhos e ama sua história.
Padre José Ferreira Neto: Que dentro em breve dias, completará 25 anos de sacerdócio, cativa Itaúna inteira por sua simplicidade, por sua dedicação incansável a causa de Deus, vive de sua fé, trabalhando para Deus e para Itaúna. Quem não o conhece? Quem não o admira? Quem não sabe que sua vida é uma prece contínua de trabalho, de exemplo pairando sobre toda a cidade?  
Senhores vereadores, o título de cidadão itaunense não foi conferido ainda e é uma honra grande demais para ser conferida a qualquer um, mas, para representar a nossa gratidão a estes dois santos homens — Pe. Waldemar Antônio de Pádua Teixeira e Pe. José Ferreira Neto.
Por isso e pelo que todos os itaunenses sabem, ao ensejo das festas das bodas de prata de sacerdote do Pe. José Ferreira Neto, itaunense, por nosso intermédio, meu e desta Câmara de Vereadores, queremos demonstrar um pouco de nossa gratidão, a estes dois homens de Deus, fazendo – nos, pelo menos honorariamente filhos de Itaúna.
Nada mais justo, ao ensejo deste grande acontecimento da vida sacerdotal do Pe. José Ferreira Neto.
Assim o jugando, levamos a consideração desta Câmara o anexo do projeto de lei.

Itaúna, 22 de Maio de 1962
Dr. Célio Soares de Oliveira — Prefeito Municipal




Prof. Luiz MASCARENHAS

         Quando o Prof. Luiz Mascarenhas – colaborador deste blog- foi agraciado com este benemérito título – em 26 de setembro de 2015- ouviu-se uma palavra muito significativa do então Presidente da Câmara Municipal de Itaúna, autor da lei que concedeu a Cidadania Honorária ao professor; o  Vereador Francis José Saldanha Franco: “Se estivéssemos ainda ao tempo do Império, a Câmara  sugeriria ao Imperador a distribuição de títulos de nobreza para os cidadãos prestantes da municipalidade; na República eis a forma de homenageá-los’!
         Inegável a raiz católica de nossa gente e o nascedouro de nossa Cultura. A colonização lusitana trouxe, não somente o modelo administrativo e político, como o arquitetônico para nossas vilas e cidades e também a religião católica e muitos de nossos costumes, hoje sedimentados pela Tradição.
         Pensar-se em uma cidade interiorana no nosso país, logo salta-nos à mente a forma de nossas povoações...a Matriz, uma pracinha, o cemitério, um boteco e o campo de futebol....
         Pelas nossas ruas e praças a figura do padre sempre foi muito presente e popular. Há alguns anos atrás, o negro das batinas, empoeiras e gastas pelo uso cotidiano era muito frequente e coloquial no meio de nossa gente. Lá vinha o vigário, ostentando sua esvoaçante batina, guarda-chuva no braço, às vezes sobre a cabeça o “saturno” (um chapéu de formato arredondado, então de uso muito comum. “A bença seu vigário...” Crianças, mulheres, homens e autoridades. Todos com reverência e respeito lhe tomavam a benção. Era uma das autoridades constituídas das vilas e pequenas cidades. E cada um, com sua própria personalidade. Uns de proeminente oratória, outros mais piedosos, outros mais afeitos aos conselhos nas confissões...enfim, cada um sendo padre à sua maneira.
         Erros, pecados e deslizes são inerentes a todos os seres humanos – inclusive aos nossos vigários.
         Mas se percorrermos as cidades de Minas e do Brasil, sempre iremos nos deparar com a memória de algum padre.... Que dá nome a algum colégio, rua, praça ou ainda homenageado em bustos e placas comemorativas. Esses homens, reverenciados por alguns, amados por outros e incompreendidos por outros tantos, marcaram e marcam – não somente a vida religiosa do povo- a vida na Educação, na Assistência aos pobres e na Cultura.
         Itaúna não foge à regra. Muitos filhos foram padres. Mais de 30 ao longo dos anos. E tantos outros que nessas barrancas aportaram, deixaram aqui o suor de sua faina pastoral e causos e histórias que povoam o imaginário de nossa gente. Afinal de contas...o “conto do vigário”, a “mula sem cabeça” e a “mulher do padre” são expressões – embora jocosas- mas que demostram bem a indelével marca que estes homens de Deus assinalaram no meio do povo que conviveram e convivem.
         Aí estão dois desses...Pe. Waldemar e Pe. Zé Netto. Um “levitava” pelas nossas ruas, praças e residências. O outro- enérgico e de pulso firme, ajudou a construir uma Itaúna que com certeza, já foi mais humana e pitoresca. E estão por aí, ainda muito vivos na memória do povo barranqueiro!



REFERÊNCIAS:
Colaboradores: Charles Aquino, Prof. Luiz Mascarenhas, Patrícia Gonçalves Nogueira.
Pesquisa: Charles Aquino e Patrícia Gonçalves Nogueira.
Organização: Charles Aquino
Revisão: Prof. Luiz Mascarenhas
Texto: Prof. Luiz Mascarenhas
Acervo Documental: Câmara Municipal de Itaúna
Acervo Fotográfico: Fotógrafo Antônio Gomes, Prof. Sérgio Machado
Foto Ilustração: Veja Folha e Charles Aquino


quarta-feira, julho 12, 2017

ESPORTE CLUBE DE ITAÚNA


Creio que pouca gente em Itaúna se lembra que o Esporte Clube de Itaúna foi vice-campeão da segunda divisão do certame mineiro.
Naquele tempo, não se falava em series A,B,C, etc.. Tempo de aspirantes, amadores e profissionais. O Esporte era profissional. Jogou as semifinais contra o Paraense de Pará de Minas. Disputa dura e muita briga. As duas cidades tinham uma velha rixa. Assisti a segunda partida. Na beira do alambrado. O Esporte ganhou e os "Patafufos" saíram corridos.
A final foi jogada contra o Nacional de Uberaba, time que talvez ainda exista. O Esporte, não sei. A primeira partida foi em Itaúna. Jogo empatado. O segundo embate foi na Terra do Zebu. Viagem longa a ser feita por avião.
Na véspera os atletas do Esporte foram de ônibus para Belo Horizonte. No dia seguinte, um sábado, embarque para Uberaba. Dizem os fofoqueiros que teve "cartola" que levou guarda-pó. Intriga dos paraenses. Que eu saiba, no céu nunca teve poeira.
Embarcaram na Pampulha num DC3 da Real Aerovias. Primeira viagem de avião na vida. Muito emoção e tremedeira. Correu tudo muito bem. Acrescente-se que o DC3 foi um avião que marcou época. Dos mais seguros já construídos.
Em Uberaba, a brava equipe itaunense hospedou-se no Grande Hotel, na avenida principal. O melhor da cidade. Existe ainda nos dias atuais. O jogo seria no domingo, às dez da manhã. Para não coincidir com os jogos da primeira divisão. Na hora do jantar, desceram todos para o refeitório. Todo mundo " varado" de fome. Afinal, não tinham almoçado e o lanche do avião mal dera para tampar os buracos dos dentes.
Naquele tempo, no jantar, era costume servir uma sopa de entrada. João Aprigio, grande e forte, " beque de espera" ao ver a sopa reclamou com os colegas:
"sem almoço e tendo jogo amanhã de manhã e só uma sopinha. É muito pouco!!!"
Dito isso, apanhou uma farinheira e despejou farinha a vontade no prato. Fez um baita grude e comeu tudo. Depois da sopa, aparece de novo o copeiro a retirar os pratos e colocar outros, bem limpos e talheres. O Aprigio então se dirigiu aos colegas: " vamos desocupar a mesa, pois parece que tem mais gente para jantar".
Foi aí que veio a grande surpresa. Um dos "cartolas" informou para o atleta que o que seria servido era para o time. A sopa era só a entrada. Aprigio não pestanejou. Procurou o banheiro mais próximo, enfiou o dedo na goela e botou toda sopa com farinha pra fora. Lavou a boca e voltou pra mesa. Comeu de tudo e ainda repetiu.
Uma nota: se não me trai a memória, o Esporte perdeu a partida. O segundo jogo foi em Itaúna. Os de casa ganharam. O desempate foi em Belo Horizonte, no campo do Cruzeiro, no Barro Preto. No dia primeiro de abril de 1964. O País convulsionado pelo Movimento de 31 de março. O Esporte Clube de Itaúna perdeu o jogo e o campeonato.

*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo enviado especialmente para o blog Itaúna Décadas em 08/07/2017.

Acervo: Prof. Marco Elísio


segunda-feira, julho 10, 2017

CEMITÉRIO SANTANENSE


Art. 1º — Fica a Prefeitura Municipal autorizada a construir o cemitério público de Santanense, bairro desta cidade.
Art. 2º — O terreno terá a área de 3.750 m2 (três mil setecentos e cinquenta metros quadrados e terá as confrontações, valor e localização:
Ø  Localização: quarteirão nº 2
Ø  Lote da rua “A” divisando com terrenos do sr. Geniplo Dornas
Ø  Propriedade da Companhia de Tecidos Santanense
Art. 3º — A Companhia de Tecidos Santanense fará a doação do terreno mencionado.
Parágrafo único — A prefeitura designará um técnico para o levantamento da respectiva planta, da qual constará todos pormenores, inclusive construção de muros em volta.
Art. 4º — Outras formalidades obedecerão ao que preceitua o Código de Posturas Municipais em artigos 210 a 246.
Art. 5º — Revogadas as disposições em contrário, a presente lei entrará em vigor na data de sua publicação.


JUSTIFICATIVA:
O povoado de Santanense dista três quilómetros da sede do município. Existe no povoado uma fábrica de Tecidos que emprega uma média de 800 operários, ou seja, 2.400 pessoas, tendo em vista a família dos operários.
No caso de falecimento de algum operário ou de pessoa de sua família, torna-se dificultoso o enterramento no cemitério da cidade.
Facilitada pela Companhia de Tecidos Santanense, pode a Prefeitura, sem grandes despesas, construir no subúrbio citado um cemitério.
Sala das Sessões, 30 setembro de 1948
Cirilo Ribeiro da Silva: Vereador pelo P.T.B.




REFERÊNCIAS:
Colaboradores: Charles Aquino, Prof. Luiz Mascarenhas, Patrícia Gonçalves Nogueira.
Pesquisa: Charles Aquino e Patrícia Gonçalves Nogueira.
Organização: Charles Aquino
Acervo: Câmara Municipal de Itaúna
Fotografia: Charles Aquino
Equipamento de trabalho: Celular Motorola XT1097 – MotoX – Velocidade ISSO-50, Distância focal:4mm Abertura 2,3, sem flash, Distância focal 35mm


sábado, julho 08, 2017

FRANGO DE DOMINGO: HISTÓRIAS DE ANTANHO



Nos anos cinquenta, frango era comida de domingo. Aliás, o cardápio do ajantarado, uma mistura de almoço com jantar, tinha frango, arroz de forno e macarronada. Falar em comer "uma massa" é palavreado moderno. Comia-se macarronada. Nas casas de ascendência italiana, o macarrão era feito em casa. O rolo de madeira, conhecido como rolo de pastel, na verdade é o " pau do macarrão".
Voltemos ao frango. Comida cara naqueles tempos de famílias numerosas. Tão caro a ponto de existir o ditado: "pobre quando come frango é sinal de doença nele ou no frango!!!!"
Apesar de quase todas as casas terem na época, galinhas no terreiro e por consequência frangos, eram os tais "caipiras", criados soltos, tratados com milho, sobras de comida, sobras de verdura, ciscando e " pastando" no quintal. Demoravam a crescer e chegar no ponto de abate. No mínimo seis meses ou até mais. Isso, se não morressem antes de doenças. Bouba aviária, doença de "new castle", caroços e outras pestes. Quando apareciam, dizimavam a criação, sem dó nem piedade.
O brasileiro tinha uma inveja danada do americano do Norte. Lá, em razão do desenvolvimento de várias raças, a carne de frango era a mais barata. Comida comum, tanto quanto os hambúrguers e as salsichas.
O frango era abatido de véspera. No sábado, a dona de casa apanhava o desditado. Na cozinha de fogão a lenha, já tinha na trempe uma panela grande com agua a ferver. Pegava o galináceo e no chão da cozinha com o pé direito prendia as duas asas do "sacrificado" e com o pé esquerdo imobilizava os pés da ave.
Feito isso, com uma das mãos pegava a cabeça do bicho e esticava o pescoço do frango. Com a outra mão, devidamente munida de uma faca, arrancava penas do pescoço, deixando a mostra a jugular da ave. Um corte certeiro e o sangue fresco escorria num prato colocado ali para tal serventia. Depois de sangrado, não demorava fechar os olhos. Morto e bem morto.
De imediato era mergulhado na água fervente. A fervura amaciava as penas e em pouco tempo já estava depenado. A penugem remanescente era sapecada no fogo. Bem pelado, hora de abrir o galináceo. Tirar a "barrigada" e descartar. Separar fígado, moela e coração. Se era para ser assado, aproveitar os miúdos para colocar na farofa. Se era para ser feito ensopado, cortar a ave em pedaços, sempre pelas "juntas" para separar coxas, sobrecoxas, asas, contra-asa. A parte mais nobre era o peito, depois o "sobre" e o Santo Antônio. A carcaça com as costelas e os pés, pedaços piores.
Por fim, abrir a moela, retirar a sujeira, tirar com a faca a parte interna, dura e amarga. Jogar água quente em todas as partes e lavar bem lavado. Em seguida, passar um limão capeta em toda a ave e preparar a "vinha d'alhos", com os temperos. Temperar bem e deixar na "marinada". No dia seguinte, jogar na panela. Em tempo: se a receita fosse de frango ao molho pardo ou "cabidela" como preferem os portugueses e os nordestinos, o sangue tão logo aparado no sangramento, carecia de um pouco de vinagre para não "talhar". Sem sangue não tem molho pardo.

Duas notas
Receitas e temperos ficam para outra ocasião. Em Minas Gerais a preferência é do Frango com quiabo e angu ou do Frango ao molho pardo. Assado, normalmente era recheado com a farofa de miúdos. Frito na gordura de porco bem quente, tomou o nome de Frango a passarinho. Nessa receita, as partes são cortadas em partes menores e as vezes, empanadas com ovo batido e farinha de rosca.
Frango vai bem com quase todos os acompanhamentos. A dificuldade era sempre da dona de casa. Tinha de cumprir todas as tarefas listadas acima e depois dividir com sabedoria de Salomão, os pedaços para a família.
Na repartição no almoço, as preferências eram observadas. O pai da família gostava mais do "sobre". Asas, coxas, sobrecoxas, Santo Antônio, distribuídas aos filhos. O peito era disputado. Dentro dele tem um osso, vulgarmente chamado de aposta ou jogo. Depois de bem limpo e seco, servia para uma disputa. A dificuldade maior era no domingo em que havia visita. Era a tão temida hora de um ou outro filho dizer que não gostava de frango e ter a sua parte no prato da visita. Enorme frustração.

*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o blog Itaúna Décadas em 07/07/2017.

Acervo: Shorpy

segunda-feira, julho 03, 2017

ITAÚNA: ESCOLA NORMAL


*Maria Lúcia MENDES

Tempo de estudante. A vida, uma alegria, o futuro um mundo que ainda fica do outro lado. A Escola Normal, um Ateneu de Raul Pompéia, com duas diferenças: sem internato e sem a figura doentia de Aristarco.
Internato houve, em épocas passadas, com irmãs de caridade no comando e moças de várias cidades que aqui chegavam para completar seus estudos. Da querida escola guardamos lembranças boas da juventude, mas certas marcas que não se apagam como de alguns professores, que apesar da competência exageravam na rigidez. Havia aulas que nos causavam medo: desde a véspera, ensaiávamos lições até à exaustão. Medo de ganhar zero, de ser chamada à frente e do vexame; medo, medo...
Aprendizagem sofrida, mas que valeu a pena pela formação e conhecimentos adquiridos. Em compensação, certas matérias davam gosto de serem estudadas tamanha a capacidade e eloquência dos que as lecionavam, transportando-nos para o mundo inteiro, numa época em que o material didático era somente livros e um mapa pendurado na parede.
Num relance percorríamos as geleiras dos Andes, as margens férteis do Rio Nilo para desembocarmos atônitas na misteriosa floresta dos Incas, a colonização das Américas, a tragédia do Titanic. Trabalhos manuais, canto orfeônico, desenho, todas estas matérias reprobatórias, além de latim, inglês e francês...
“Le matim maman n’appelle. George, leve toi”. Quanto suor frio e leitura gaguejada, a fala não saía.
— Tome de mim a segunda declinação.
— Servus, servorum.
Quantas noites a fio varávamos o livro aberto, estudando para a prova da manhã seguinte. Em junho, realizavam-se as provas parciais que todos temiam por terem peso dobrado.
No final do ano, apôs as provas escritas, todos os alunos eram submetidos a exames orais de todas as matérias. Se a turma fosse numerosa, as provas prolongavam-se até à noite, os alunos e fila para confessionários. Diante da banca examinadora sorteávamos trêmulas um ponto, cujo número vinha escrito em papeizinhos enrolados.
— Ponto sorteado número cinco. Falar sobre ciclos econômicos do Brasil. São muitas as lembranças de quando lá estudávamos. Revejo as salas de cadeiras duplas, os corredores, uma escadaria de madeira que dava acesso ao segundo andar, o museu, lugar fascinante, onde tudo era novidade, pois não nos cansávamos de contemplar animais embalsamados entre eles um tamanduá, além de aves de lindas plumagens empalhadas com arte e cobras enormes mergulhadas em formol. Dava pavor aproximar-se dos vidros e alguns não se arriscavam cismados que as serpentes pudessem avançar.
Havia também uma infinidade de conchas, pedras e ovos à mostra em mesas com tampas de vidro. Um farto material companha o cenário das aulas de ciências e anatomia, por sinal, muito agradáveis e curiosas. Achávamos o máximo estudar bactérias através dos microscópicos. Era divertimento geral chuchar as penas de um esqueleto em tamanho natural, preso ao teto por uma corrente. Depois corríamos assustadas para vê-lo de longe chocalhando a ossada.
Vez por outra burlando a vigilância, corríamos até o jardim para tentar um jacaré que vivia no repuxo. Sob uma chuva de gominhas atiradas em suas costas o bicho mergulhava procurando refúgio. Para variar jogávamos nele uma ou outra flor apanhada às escondidas ali mesmo e caíamos na risada quando o víamos voltar com a flor agarrada nas costas.
— Meninas, já pra sala! Não ouviram o sinal? Era Dona Carola com aqueles olhos muito azuis e voz mansa.
Juventude sadia, sem o flagelo das drogas, sem o consumismo desenfreado, e os exemplos negativos da televisão. Tínhamos sim, a inquietude própria da idade, e uma preocupação constante: ficar em exames de segunda época. No mais, sem angústia ou revolta, aceitávamos e bem -  tênis surrados, livros de segunda mão e bolsos sempre vazios.
Durante todo o ano, a escola cumpria extensa programação. Além das comemorações cívicas — principalmente sete de setembro — realizado com grande entusiasmo — havia as semanas pedagógicas em sessão solene no salão. Conferencistas famosos em todo o Estado enriqueciam o evento e entre uma palestra e outra intercalavam-se números de canto e poesia acompanhados ao piano pelo Padre Luís.
Realizavam-se ainda concursos de oratória, exposições de trabalhos manuais que atraíam centenas de visitantes. Por ocasião da festa de Páscoa, nas procissões de Corpus Christi, vestíamos o uniforme de gala com luvas e tudo. Participação em massa pois havia chamada e a falta sem justificativa era suspenção na certa.
Durante o recreio o pátio pipocava em algazarra. Espalhados aqui e ali, os grupinhos de sempre. Nas filas do bebedouro, empurrões e brincadeiras, enquanto o galpão ficava apinhado de alunos, merendando. Vez por outra aconteciam as famosas guerras de limões-capetas roubados no quintal de seu Tonico e atirados lá do galpão, sobre a turma do pátio.
Questão de segundos, dava-se o troco e num vaivém medonho, os limões zuniam sobre nossas cabeças indo se espatifar no chão. Quando a guerra estava no auge, uma voz conhecida, punha água à fervura. As autoras da “revolução” ficavam após o término das aulas, empunhando vassouras, enquanto o restante amargava-se de castigo sob um sol de rachar.
Foram muitas as emoções vividas naquele pátio: recados amorosos, trocas de ideias, planos.... Foi também ali que, posto em fila obedecendo a um sinal dado fora do horário ouvimos a voz embargada do diretor:
— Faleceu o Exmo. Sr. Presidente da República Doutor Getúlio Dornelles Vargas.
Um silêncio pesado dominou a tudo e a todos. Era 24 de agosto de 1954.
Assim era nossa escola. Ali vivia-se intensamente o que disse Ovídio Decroly : “A escola da vida, para a vida e pela vida!. Longe de um simples slide, desconhecendo por completo xerox e informática, percorríamos o mundo inteiro graças às riquezas de detalhes passados pela professora de Geografia, dando-nos a impressão de estarmos diante de uma tela.
Tempos depois terminado o ginasial, ingressamo-nos no Curso de Formação de Professores. O magistério nossa acenava, e cheias de ideal fomos m busca de um futuro melhor.
— Minhas alunas vocês juram que nunca darão aulas passivas? Vou fazê-las pôr a mão sobre a Bíblia e jurar.... Saudosa professora, a de Metodologia do Ensino. Pequenina, dinâmica, ao toc toc de seus sapatos de salto zarpávamos aos bandos sala a dentro, assentávamos num segundo, fazendo caras de santa.
Como D. Graciana não se cansava de repetir: “ O Brasil precisa de professores capazes” e “a motivação é mola real da aprendizagem”.
Escola Normal: se suas paredes falassem quantos sonhos de nossa juventude você relaria. Quantas ilusões e esperanças mortas perambulam como fantasmas naqueles corredores. Saudade sepultada pelo tempo, onde entre uma aula e outra sonhávamos com Elvis Presley dançando o rock e Marlon Brando enfeitiçando nossos corações de adolescente. Tempo inesquecível; quando os sonhos ainda eram verdades.

* Escritora itaunense por herança e registro.

Fonte: MACEDO, Maria Lúcia mendes Vera. Pedra de Cetim, BH, Gráfica e Ed Cultura, 2001, p.66,67,68,69.

Acervo: Shorpy

domingo, julho 02, 2017

ITAÚNA FUTEBOl: VICENTÃO & BUTÃO

Partida de futebol em Santanense: “Souza Moreira x Esporte Clube”.
  Grande defesa do goleiro Murilo José, camisa 20.  

Vicentão era pedreiro, pintor, massagista do "José Flávio de Carvalho F.C." e centro-avante nas partidas disputadas nos arredores de Itaúna. Estatura mediana e muito parrudo. Daí o apelido. Como massagista, diziam que dispensava o álcool para friccionar as caneladas desferidas nos atletas. Bastava um "bafo" caprichado na perna dos lesionados. Bebia muito. Boa gente, alegre e brincalhão.
Butão era "socado", baixinho atarracado. Profissão indefinida. Prendas diversas, conhecida nos dias atuais como Serviços Gerais.
Arranjaram um jogo num domingo no Pasto das Éguas. Campo de terra, rodeado de poucas casas e plantações ao redor. Iriam jogar contra o time do Zico Pé de Chumbo, figura emblemática do lugar. Trabalhava na fazenda do Antônio Chaves e tinha a honra e soberbia de ser compadre do Athos Jove, filho do patrão, cultor da língua francesa. Zico aprendera algumas palavras do idioma de Flaubert e quando tomava umas pingas esnobava os vizinhos, repetindo como papagaio, palavras na língua gaulesa.
O time do Vicentão se ajeitou na carroceria de um caminhão do Alfredo Lopes. O motorista era o Cumbuca, filho do Alfredo. Transportava o time sem cobrar. Enquanto assistia ao jogo, tomava umas cachaças e se divertia.
O jogo estava duro. Sol quente, já perto do meio-dia e nada de gols. Goela seca dos atletas. Secura de pinga, que água não cura.
Quase no fim do jogo a bola foi chutada pelo time do Zico numa plantação de abóboras moranga. Vicentão corre para apanhar a pelota.
Volta com a bola e uma abóbora bem taluda debaixo do braço. Na lateral, grita para o Butão: " vou jogar na área, vai de cabeça Butão".
Dito isso, jogou a abóbora. Butão entrou de testa com toda vontade. Só não quebrou o pescoço, por falta de tal atributo. Desmaiado, demorou a voltar a si. Jogo encerrado sem vencedor ou perdedor. A tempo de molhar a garganta com boa pinga do Alambique doMozart, um pouco a frente, já nos Catumba. Cumbuca ao volante do Chevrolet não regateou e tocou para lá. A partida ficou na história.

*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o blog Itaúna Décadas em 30/06/2017.

Acervo: Murilo José e Clube Atlético Souza Moreira ( Org. Willian Douglas)


quinta-feira, junho 29, 2017

PADRE CAUPER: MISSIONÁRIO ESPIRITANO EM ITAÚNA


A tragetória do missionário amazonense do município de Tefé, o Espiritanto Revd. Pe. Cáuper, é no mínimo fascinante e gloriosa! Após sair da exuberante Amazônia, percorreu  por plagas lusitanas, passando pelas Gerais e fincando suas raízes na cidade maravilhosa, que o recebeu de braços abertos — o Rio de Janeiro.   

O INÍCIO
Em uma viagem pela América Latina, no ano de 1893, após visitar um colégio que os Espiritanos haviam inaugurado no ano de 1891 em Lima (Perú), o visitador das obras espiritanas, Pe. Xavier Libermann em trânsito pelo Brasil, passou pela cidade do Rio de Janeiro e encontrou com o recém nomeado primeiro Bispo de Manaus, D. José Lourenço da Costa Aguiar, o qual, demonstrou interesse e necessidade em trazer missionários para a diocese daquele município brasileiro.
Este aproveitou a oportunidade para falar das grandes necessidades da nova diocese, pediu a ajuda da Congregação e convidou o Pe. Xavier para a sua tomada de posse em Manaus. Então, o Pe. Xavier teve oportunidade de conhecer o cónego Dupuy, sacerdote secular francês, que era vigário da paróquia de Sta. Teresa em Tefé, que influenciará na vinda dos Espiritanos para Tefé. A cidade de Manaus tinha apenas 2 padres para 50 000 habitantes, e no interior havia só 5 ou 6 padres. (ESPIRITANA, 2004, p.8)

 Chegando em Paris, o Pe. Xavier levou o pedido à direção da Congregação, “defendendo o envio dos Espiritanos aos índios da Amazônia” (ESPIRITANA, 2004, p.8).
No ano de 1896, o Bispo José Lourenço segue para Europa para pedir apoio ao Conselho Geral e reforçar o pedido do Espiritano Padre Xavier. O desideratum foi alcançado e no dia 13 de abril de 1897 em Lisboa, os missionários, padre Parissier e padre Friederich, desembarcaram em Manaus e os outros, padre Xavier Libermann e o irmão Donaciano seguiram viagem até o município de Tefé do estado do Amazonas.  Instalados no local e trabalhando muito, os Espiritanos construíram a “Escola Agrícola e Industrial de Bocca de Tefé”, contendo internato, carpintaria, curtume, torno mecânico, fábrica de chocolate, de vinho, caju, entre outros. (ESPIRITANA, 2002, p.56)   

MISSIONÁRIO CÁUPER
No ano de 1913, dava início a construção do Seminário de São José, com destino a formação de padres. Após a conclusão do seminário em 1921 e com a mesma finalidade de trabalho e formação, criou-se também um internato no mesmo local. Nascido no município de Tefé do estado do Amazonas, no dia 6 de março de 1919, Manuel de Lima Cáuper, foi um dos primeiros a passar pelo seminário (ESPIRITANA, 2002, p.57).
Na década de 30, o jovem missionário Cáuper seguiu para Portugal com objetivo de estudar na cidade de Braga, realizando o seu noviciado no ano de 1942. Os votos perpétuos e ordenação sacerdotal, foram recebidos no Brasil em outubro de 1947 na Catedral de Santa Tereza, em Tefé. Homem simples e usando sua batina somente nas horas de cerimônia, o Padre Manuel de Lima Cáuper, foi missionário por dois anos no alto dos rios amazonenses.


ITAÚNA
Em Minas Gerais, passou pela cidade de Curvelo, chegando no início da década de 50 à Itaúna, seu trabalho era ensinar em ginásios e seminários das congregações.  O estabelecimento que trabalhou no município itaunense, denominava-se, Ginásio Sant’Ana, hoje Colégio Santana, cujo local era administrado pelos padres missionários da Congregação do Espírito Santo (Tombo II, p.20,26).
O provedor responsável, era o Pe. Pedro Schoonakker auxiliados pelo missionário Pe. Cáuper e os padres holandeses. Em 1954, era iniciado os trabalhos do Seminário denominado “Menor de Nossa Senhora de Fátima”, com um número de treze alunos matriculados (Tombo II, p.28). O reitor responsável, foi o Revdo. Padre Adrianus Petrus Turkemburg e mais dois padres integrando os serviços — Pe. Martinho Cools e Pe.Luiz Turkenburg. No ano de 1955, no dia 9 de março a cidade recebeu a visita do Superior Geral dos Padres do Espírito Santo, o Revdo. Padre Francisco Griffin (Tombo II, p.42).
(clicar na imagem para melhor visualização)



CONGRESSO VICENTINO DIOCESANO: DIVINÓPOLIS & LUZ

De acordo com o senhor Bispo de Luz, Dom Belchior da Silva Netto, o Congresso Vicentino foi feito com o consenso da duas Dioceses. Itaúna se preparou dignamente para este certame de caridade e de união. Foram organizadas as diversas comissões (Tombo II, p. 61,62):

Central
Dom Cristiano de Araújo Pena, Bispo Diocesano, Bispo Divinópolis
Central
Dom Belchior Joaquim da Silva Netto, Bispo Diocesano de Luz
Organizadora
Pe. Antônio Wiemers, vigário de Santanense, Itaúna
Organizadora
Pe. Martinho Cools, vigário de vila Padre Eustáquio, Itaúna
Organizadora
Antônio Fonseca de Faria, presidente Conselho Diocesano, Itaúna
Organizadora
José Augusto de Carvalho, presidente Conselho Particular, Itaúna
Finanças
Dr. Célio Soares de Oliveira, Prefeito Municipal, Itaúna
Hospedagem
Dr.Guaracy de Castro Nogueira, Gerente da Cia. Itaunense, Iaúna
Propaganda
Dr. Milton de Oliveira Penido, Itaúna
Secretário
Dr. Lauro Antunes de Morais, Itaúna
Arte
Pe. Manoel de Lima Cáuper, Itaúna
Arte
Dona Wanda Nogueira Corradi, Itaúna
Ornamentação
Murilo Santos Guimarães, Itaúna
Ornamentação
Dona Artumira de oliveira, Itaúna
Recepção
Antônio Henrique da Fonseca, Itaúna
Recepção
Dr. Ivan Perillo, Itaúna


         BANDEIRAS: Foram confeccionadas mais de trezentas bandeiras de Itaúna, que foram colocadas na frente das casas.
ESCUDO DO CONGRESSO: No centro deste escudo um coração dentro deste uma lâmpada com uma chama, simbolizando a missão do Vicentino — a caridade ardente. Em cima do escudo — 2º Congresso Vicentino – Itaúna Julho 1962. Em baixo — “Deus Charitas est”. Na frente de todos as casas e nos postes da praça e ruas principais foi colocado o escudo.
DISTINTIVO DO CONGRESSO: Foi o escudo impresso e cada congressista trazia em seu paletó. A confecção foi dádiva do Banco Minas Gerais S.A.
PROGRAMA DO CONGRESSO: Foi uma obra artística. Na capa uma vista da praça com a matriz de Itaúna em cor, contendo os seguintes dizeres: 2º Congresso Vicentino Diocesano de Divinópolis e de Luz — “Unidos na Caridade de Cristo” De 28 de Junho a 1º de Julho de 1962. Itaúna — Minas Gerais.


FRUTOS MISSIONÁRIOS
Pe. Adriano Turkemburg foi bastante influente na vida de um garoto itaunene — Mário Clemente Neto, nascido no ano de 1940, em uma comunidade rural denominada, Capão Escuro, que chegou a pertencer a Itaúna, após o ano de 1948 passou para Carmo do Cajuru. Sendo o 15º filho de uma numerosa família de 20 irmãos, Mário não hesitou quando recebeu o convite do padre missionário para servir a Deus. Diante da resposta, o garoto que acabar de se formar no Ginásio Sant’Ana, iniciava uma grande jornada. Passando pelo seminário de Mariana, Teresópolis, no Rio e chegando até Roma, onde estudo teologia e várias línguas, além do latim.

ORDENAÇÃO SARCEDOTAL
Itaúna assistiu com grande alegria a e emoção a ordenação de um de seus filhos: Mário Clemente Neto, pertencente à Congregação dos padres do espírito Santo, que dirige o Ginásio Sant’Ana, no dia 14 de agosto às 10 horas na matriz Sant’Ana. A igreja foi ricamente ornamentada. O oficiante foi o Bispo Diocesano Dom Cristiano Pena, acompanhado de um grande número de sacerdotes, regulares do Espírito Santo e Franciscanos, bem como os seminaristas destas mesmas entidades (Tombo II, p. 80).


PRIMEIRA MISSA
Dia 15 de agosto, festa da Assunção de Nossa Senhora; o Pe. Mário Clemente Neto celebrou a sua 1º missa, foi concelebrada com mais quatro padres, entre os quais, o vigário e o superior dos padres do espírito Santo. O côro foi dos seminaristas dirigido pelo Pe. Geraldo. A pregador foi o pe. Manoel de Lima Cáuper,  sendo para todos, momentos de grande emoção e piedade (Tombo II, p.80).
Dom Mário Clemente Neto, CSSp até hoje exerce um grande trabalho no Amazonas, no município de Tefé. Escreveu um livro “Vim para Servir” – Cartas de Um Missonário. 

Em sua passagem por Itaúna, Padre Cáuper realizou grandes trabalhos missionários e culturais. Orador pujante de grande eloquência, também nas festivas datas cívicas – como nos vistosos desfiles de 7 de setembro- estava sempre à frente do microfone, a inflamar os jovens alunos para o amor à pátria!  Sendo músico, dotado de grande inspiração e amor por nossa terra barranqueira de Sant’anna, compôs um hino em homenagem à cidade: “Avante Itaúna” e outro em louvor às bodas de prata sacerdotais do então pároco de Sant’anna: “Hino ao Pe. José Netto” (no ano de 1962). Outro presente para a comunidade itaunense, seria o hino que compôs para os trabalhadores:

HINO OFICIAL DA COMPANHIA INDUSTRIAL ITAUNENSE
Letra & Música: Revmo. Pe. Manuel de Lima Cáuper

Ao primeiro clarão da alvorada,
Vibra ao longe a sirene de alerta!
Operários, à fina sagrada! ...
Que o trabalho enobrece e liberta.

CÔRO:
Avante operários da Itaunense ...
Nós somos a voz do progresso a marchar!
Nós somos a força indomável que vence
Cumprindo o dever: Trabalhar! Trabalhar!

Capital e trabalho marchando
Bem unidos em prol do amanhã.
São as forças da paz no comando
Das vitórias da ordem cristã!

Operários da Itaunense,
Eia, pois: — Trabalhar! Produzir!
A riqueza que a toso pertence
Vem trazer-nos ditoso porvir.

Dando as mãos, no valor fatigante,
À conquista do mesmo ideal,
Operários, patrões: — Sempre avante!
Pela nossa vitória vinal.

Operários, cristãos, brasileiros,
Demos graças, num preito de fé.
Ao patrono comum dos obreiros,
Nosso guia fiel São José.

Ao fulgor deste cinquentenário,
Celebremos a glória, o louvor
Desse nobre varão lengendário
Nosso grande e imortal fundador.

Foi aproximadamente uma década de dedicação, trabalho e amor, que Padre Cáuper realizou e deixou nos corações itauneses, cuja, missão rendeu bons frutos e seus ecos, ressoam nos corações das gerações que o conheceram até hoje.


PESQUISA:
Charles Aquino, graduando em História, 8º período, UEMG/Divinópolis/ MG.
Historiador Escritor Professor Luiz Mascarenhas, Bacharel em Direito / Licenciado em História pela Universidade de Itaúna/MG.

ORGANIZAÇÃO: Charles Aquino

REVISÃO: Prof. Luiz Mascarenhas

REFERÊNCIAS:

LIVRO DO TOMBO II: Paróquia de Sant’Anna de Itaúna.

Missão Espiritana: Revista das Circunscrições Espiritanas Lusófonas. Província Portuguesa da Congregação do Espírito Santo, junho 2002 vol 1, e 2004 vol 5, p.8,9,56,57.

Diocese de Divinópolis: Biografia Mário Clemente Neto. Disponível em:  https://www.diocesedivinopolis.org.br/index.asp?c=padrao&modulo=conteudo&url=05585&ss=7

História Província Portuguesa: A restauração da província de 1910 aos nossos dias. Disponível em: https://view.publitas.com/cssp/historia-da-provincia-portuguesa/page/254-255  p.423.

Acervo: Foto Padre Cauper. Disponível em: http://artefvc.blogspot.com.br/

Homenagem ao Padre Missionário: Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=FXFfVzXIE6U&feature=channel_page

Acervo: Formandos 1957 no Colégio Santana/Itaúna: Marcos Lacél Camargos