sábado, junho 24, 2017

VIRIATO E FIDÉLIS: PARA COM ESSE BERREIRO


José Batista Guimarães, filho do saudoso Delzir Batista sempre foi um gozador nato. Conhecido como Zé do Delzir, em certa quadra da vida dizia que dali por diante seria somente Zé. Segundo ele, comprara a parte do pai.
Éramos vizinhos na rua Direita. O pai, tinha uma fazenda lá pelos lados de Itatiaiuçu. Terra de minério, ruim de cultivo. No entanto, tratavam a gleba com todo carinho. Dava prejuízo.
Certa feita resolvera " terracear" uma encosta para plantar laranjas. Contrataram um trator de uma firma memorável. Os proprietários: Aldo "preto"Chaves, Plauto "escorpião"Machado e o Inacinho. Três sócios exemplares. Sem reparos.
Aprontados os terraços e prontas as covas, chegara a hora de plantar as mudas. Coisa fina, vindas de Lavras, compradas na Escola de Agronomia. Eu estava "flanando" quando Zé do Delzir me convidou. Ir com ele na Vila Mozart, acertar com dois conhecidos para plantarem as mudas na fazenda.
O primeiro deles, de nome Viriato, amigo dos Batista, acertou tudo com o Zé, que disse-lhe com seriedade: " Viriato, lá tem serviço pra uma semana. Você ficará hospedado por lá. Basta levar umas duas mudas de roupa. Tem cama e comida. Vou " palavrar" alguém para lhe ajudar. Você não o conhece. Trata-se do Fidélis, homem bom de serviço e compadre do meu pai. Gente boa. Só tem um senão: é surdo que nem uma porta de braúna, quando você conversar com ele, fale bem alto.
Isso feito, fomos a procura do Fidélis que morava na Vila Padre Eustáquio. Mesma conversa travada com o Viriato. No final, a advertência: estou levando para te ajudar lá, o Viriato. Homem sério e trabalhador. Só tem um reparo: é surdo que nem um teju. Quando, falar com ele, grite bem alto para ele ouvir.
No dia seguinte cedo, apanhamos os pseudo-surdos bem cedo. Aboletados na carroceria da caminhonete, travaram conhecimento por meio de uma gritaria infernal. Da cidade até a fazenda. Trocaram de roupa, apanharam os apetrechos para a lida e continuaram o berreiro. Afinal, para todos efeitos, eram surdos.
A "latomia" continuou por todo o dia. Da casa da fazenda, ouvíamos claramente o berreiro. O serviço rendia, os homens ficaram roucos e de cabeça doendo, tamanha era a gritaria. Na hora do jantar, pudemos constatar que os dois trabalhadores estavam à beira de um ataque. Caras fechadas. Não queriam conversa.
À mesa, infelizmente, tiveram de gritar um para o outro. " Me passa a carne, disse o Viriato"
"Já vai, retrucou o Fidélis". Aproveita e me passa o arroz. Gritos para pedir o feijão, o angu e o guisado. Zé do Delzir com as bochechas infladas para não gargalhar. Por fim, com os tímpanos a estourar, o Viriato virou-se para o Fidélis e gritou: " para com esse berreiro. Eu não surdo não, seu filho da mãe. Ao que o Fidélis retrucou de pronto: " e nem eu, seu f.d.p....
Foi a senha para os dois homens se atracarem. Com muito custo, e a intercessão de Delzir Batista, os dois trabalhadores se acalmaram. O Zé ria a mais não poder. Tinha feito a sua maldade do dia.

*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o blog Itaúna Décadas em 23/06/2017.


sexta-feira, junho 23, 2017

ITAÚNA: TRAÍRAS, URUTU E TIC-TAC


A familia Corradi, de ascendência italiana foi a responsável pela introdução e desenvolvimento das técnicas de fundição de ferro em Itaúna. Fizeram muito pela cidade e creio, já estão na quarta ou quinta geração de itaunenses.
Quando minha família chegou na urbe, presumo, estavam na segunda turma, entrando na terceira. Nos idos de cinquenta do século passado, os Corradi tinham automóveis Ford modelo A, à exceção de um deles que possuía um Chevrolet 1926 com rodas de aro de madeira.
Um deles, do qual não revelo o nome, além de especialista nas artes de fundidor, era também pescador e bom benzedor. Foi uma vez na casa de meus pais, benzer uma erisipela na perna do "velho", a pedido de um vizinho nosso. Meu pai assentiu a contragosto. Católico, não acreditava em tais poderes. Concordou para não contrariar o vizinho prestativo. Na verdade, a cura veio de uma receita do dr. Oliveiros Rodrigues, aviada com maestria na farmácia do Seu Alfredo.
Diziam que o tal Corradi gostava de contar uma mentira. Nada que prejudicasse a outros. Digamos que era apenas exagerado. Na visita em minha casa, contou a seguinte história que passo a narrar "ipsis verbis": Numa ocasião foi pescar traíras na Barragem Velha, abaixo da Barragem do Benfica. Pesqueiro bom, antes de ser tomado pelos aguapés. Estacionou o "Fordeco" numa sombra, pescou uma meia dúzia de piabas para isca das traíras, iscou o anzol e pouco tempo depois já fisgava uma bem taluda.
Tirou do canivete, fez uma boa fieira com um galhinho de árvore, enfiou a traíra e continuou na colheita. Não sem antes de pendurar num arbusto o seu relógio de algibeira, marca Roskoff Patent, com gôndola de prata. Coisa fina, de precisão e muita estima.
A fieira de peixes foi de dependurada em outro arbusto. O dia estava bom pra peixe. Em pouco tempo, já contava com mais de meia dúzia de peixes enganchados. Um belo almoço no dia seguinte!!!!
Só não contava com um imprevisto. A fartura de peixes atraíra uma urutu cruzeiro, das bem grandes. A danada da cobra não conseguiu alcançar a fieira e não tendo o que picar, atacou dois pneus do carrinho.  Quando o nosso personagem deu fé, os dois pneus dianteiros estavam inchados e ardendo de febre. Uma suadeira danada.
De imediato, juntou as tralhas, colocou na "Furreca" e se mandou pra cidade, rezando pros pneus aguentarem. Com muita sorte, conseguiu chegar. Em casa, esvaziou os pneus e lavou bem com agua fria. No dia seguinte, iria enche-los. Acontece que na pressa de voltar, esquecera o relógio dependurado no arbusto. Não se lembrara mais de onde tinha deixado o cebolão.
Passaram-se cinco anos. Um belo dia, resolve ir pescar no mesmo local. No silêncio da beira d'agua, ouviu um " tic tac" Tirou o chapéu e apurou os ouvidos. Era mesmo o barulho de um relógio. Botou os óculos e foi procurar a origem do ruído. Enorme a agradável surpresa. O seu Roskoff Patent estava preso no alto de uma árvore de boa altura. O arbusto crescera e levara o relógio para as "grimpas". O vento se encarregara de dar corda no mesmo. Conferiu as horas: estava certinho!!!!. Eta relógio bom.

*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o blog Itaúna Décadas em 08/06/2017.


quinta-feira, junho 08, 2017

ITAÚNA: BODOCADA E BICADA DE URUBU


Há dias eu vi neste espaço uma postagem que traz informações acerca de um moinho de fubá que existia numa corredeira no rio São João, bem na entrada da cidade, ao lado do Matadouro Municipal. Do moinho eu não tenho lembrança. Do antigo matadouro, sim, lembro-me muito bem.
Éramos bem jovens, pré-adolescentes. Costumávamos ir até lá para ganharmos bexiga de boi. Bola de futebol era artigo caro e raríssimo. Uma bexiga de boi proporcionava uma bola razoável. Era forte e aguentava o tranco. Dava uma boa pelada. O lugar era muito precário. Instalações e higiene eram " manga de colete". Muita sujeira, sangue, vísceras e partes inaproveitáveis do " defunto" jogadas na correnteza do rio. Consequência: mau cheiro e muitos urubus.
A consciência ecológica que tínhamos era restrita aos abutres. Sabíamos que as aves eram protegidas por uma lei qualquer. Sempre soubemos que era proibido caçar os bichos. Proibição de caçar. Nada impedia a sua captura, se vivos. Bodocada não matava. Se bem aplicada, apenas tonteava a criatura e facilitava a apreensão.
Naquele tempo era muito comum as " perebas”. Feridas mal curadas na pele que desandavam e permaneciam por longo tempo. Talvez por infestação de bactérias e falta de higiene. Ou até os dois fatores combinados.
De nossa turma tinha um menino que tinha muitas perebas no braço. Deixo de dizer o seu nome em solidariedade. Deve estar vivo ainda e faço votos que esteja. Idade regulando com a minha. Bom amigo. Preservo a sua identidade.
Meu irmão Antônio de Pádua era um ás do estilingue. Pontaria certeira. Um bom seixo rolado na ferramenta e eis o urubu tonto da pedrada. Fácil de ser capturado sem muito esforço. Bicho tonto, bastava amarrar um barbante de " embira" na sua perna e dar para um da turma tomar conta. Depois de refeito da tonteira, uma nova diversão. Uma imitação mambembe de um falcão. Coisas de filme dos
Cavaleiros da Távola Redonda. Pegamos o urubu. Amarramos sua canela e demos ao " perebento" para tomar conta. Passados uns dez minutos a ave recobrou-se da zonzeira. De imediato tentou se soltar atacando o braço coberto de sarna e micoses do moleque. Bico forte acostumado a rasgar carnes. Arrancou um bom naco. O carcereiro assustado largou a embira. O bicho bateu asas e se mandou.
Nosso amigo carregou pela vida afora a cicatriz no braço. E o apelido de " comida de urubu”.

*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o blog Itaúna Décadas em 05/06/2017.


Acervo: http://www.audubon.org

terça-feira, junho 06, 2017

A CORRUPÇÃO NOSSA DE CADA DIA


Prof. Luiz MASCARENHAS*

A fim de entendermos um pouco melhor dessa anomalia política, tão arraigada em nossa cultura, devemos destrinchar metodicamente esse assunto, com destreza e sutil acuidade.
         Iniciemos pela própria palavra Corrupção: "Corrupção" vem do latimcorruptus”, que significa "quebrado em pedaços” ou “partido”; na verdadeira concepção de "corrup + tus". O verbo "corromper" significa "tornar-se podre" no "partir-se". No dicionário Aurélio, apuramos corrupção em sentido figurado como depravação, perversão.
         Desta feita, o próprio significado de CORRUPÇÃO já nos é bem emblemático.
         Observamos uma equação assim formada: corrupção = podridão. E, por conseguinte, o corrupto é podre; em sua própria natureza.
         Trataremos aqui, portanto, da Corrupção Política, que é assunto em pauta desde há muito em nosso sofrido país. É a origem, o gérmen de todos os nossos males.
         Para um tema falado e debatido tão amiúde, apontamos algumas definições.          Segundo a ONG - Transparência Internacional, a corrupção pode ser definida como "o abuso do poder político para fins privados". Essa é a definição mais aceita e conhecida do termo e pode ser aplicada à maior parte das notícias sobre corrupção que vemos diariamente na mídia.
         A Corrupção política, portanto, se dá no uso das competências legisladas por funcionários do Governo, ou agentes políticos – propriamente ditos -  para fins privados ilegítimos. Corrupção é o ato final e criminalmente punível, iniciado sempre por outro crime menor, nomeadamente falsidade, abuso de poder, abandono de funções, denegação de justiça e cujo objetivo é consentir, aceitar, solicitar, ceder ou prometer uma vantagem patrimonial ou não patrimonial indevida, ilícita, ilegal para si ou para terceiro. O ato, se for habitual e continuado, se traduz em prejuízo grave para a Economia e, em sequência, cria uma crise ao desestruturar a função, utilidade ou a economia do investimento, que assegurariam a igualdade entre as partes envolvidas.
         Quanto as formas de corrupção política, estas variam, e sobre as quais poderemos no desenlace das ideias, proceder a uma sucinta explicação, a saber; suborno, extorsão, fisiologismo, nepotismo, clientelismo e peculato. E, embora a corrupção possa facilitar negócios criminosos como o tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e tráfico de seres humanos, ela não se restringe a essas atividades; seu campo de atuação é por demais extenso.
         Uma ressalva havemos por bem de fazer; as atividades que constituem corrupção ilegal diferem por país ou jurisdição. Por exemplo, certas práticas de financiamento político que são legais em um lugar podem ser ilegais em outro. Em alguns casos, funcionários do governo podem ter poderes amplos ou mal definidos, o que torna difícil distinguir entre as ações legais e as imorais ou mesmo ilegais.
         Imbuídos de uma primeira ideia sobre o que seria a corrupção, podemos partir para outros pontos.
         Qual seria a origem da corrupção? Onde foi seu nascedouro?
         Através das veredas da Sociologia, podemos visitar o pensamento do alemão Max Weber; onde se associa a corrupção ao fenômeno do Patrimonialismo.   
Patrimonialismo remete às formas de governo de sociedades antigas ou tradicionais, onde não havia distinção clara ou limites entre o público e o privado. Nesses casos os bens públicos eram considerados como propriedades dos governantes ou de determinadas classes sociais, sendo utilizados e explorados conforme os seus interesses.
         Para melhor entendimento dessas práticas, podemos visitar as nossas Minas Gerais, no período setecentista... fazendo aquele rasante pela nossa História; afim de não furtarmos às vocações deste articulista.
         Pois bem, assim sendo, elucidamos que, durante boa parte do séc. XVIII, a Coroa Portuguesa achou por bem fazer o que hoje conhecemos por terceirizar serviços.  Este contexto histórico, é muito rico e complexo, e se torna um campo onde percebe-se, de modo fácil e muito eloquente essas práticas, cujas sombras ainda se projetam em nossa máquina administrativa contemporânea.
         A Administração Colonial Portuguesa terceirizava, portanto, a cobrança de seus muitos impostos e tributos.  Os cargos e funções iam para hasta pública. Como exemplo temos o famoso cargo de Contratador (o administrador do Real Contrato – rendas e direitos -  em nome Del Rei de Portugal) era levado para a concorrência pública, para um período de três anos. Os concorrentes faziam lances em cima de um valor estipulado pela Coroa; o de maior lance vencia o prelo.                                                                                        Ao final do triênio, o Contratador deveria pagar à Coroa o valor estipulado para o Real Contrato. Se ele tivesse arrecadado menos...prejuízo e suas duras penas. Porém, se se arrecadasse além, lucro! Assinalamos que havia, junto aos funcionários do Contratador, em cada Registro (postos de recolhimento de tributos – parecidos com os postos de pedágios de hoje; porém com uma abrangência bem maior) fiscais também da Real Fazenda e destacamentos dos dragões (a polícia daquele tempo). Os contratadores, quando não o eram, tornavam-se homens ricos e poderosos...e com imenso status na Colônia.
         Dessa prática colonial, nos vem o sentimento (inconsciente até) de que o ocupante do cargo público é seu proprietário. E se o cargo é meu, faço dele o que quiser e bem entender...
         “Sabe com quem você está falando? ” Pequena indagação que carrega em si as penumbras das práticas autoritárias, tão antigas quanto nossa própria História.
         E a CORRUPÇÃO? Ora, sendo o cargo público de propriedade privada – mesmo que por tempo determinado – grande era a confusão de interesses e maior ainda os desvios de impostos e tributos...partindo em primeiro lugar da própria autoridade; afinal, diante de tanta riqueza e com um “patrão” (El Rei) tão longe...além mar...o caráter era testado a ferro e fogo (digo a ouro e diamantes...)  e grande era a tentação pela riqueza e pelo Poder.
         CORRUPÇÃO...esse assunto dá pano pra manga...
         To be continued...

* Bacharel em Direito/ Licenciado em História pela Universidade de Itaúna Diretor da E.E.”Prof. Gilka Drumond de Faria”


Acervo: Shorpy

EDUCAÇÃO: POLÍTICA E CIDADANIA


Hoje, procuraremos imiscuir à ideia de Política, conceitos de Cidadania e de como a EDUCAÇÃO pode contribuir para a formação do Cidadão.
Ora, podemos pontuar Cidadania como o exercício dos direitos e deveres civis, políticos e sociais estabelecidos pela Constituição Federal. Os direitos e deveres de um cidadão devem andar sempre juntos, uma vez que ao cumprirmos nossas obrigações permitimos que o outro exerça também seus direitos.
O conceito de Cidadania tem origem também na Grécia Antiga; sendo usado então para designar os direitos relativos ao cidadão, ou seja, o indivíduo que vivia na cidade (civitas, em latim) e ali participava ativamente dos negócios e das decisões políticas. Cidadania, pressupunha, portanto, todas as implicações decorrentes de uma vida em sociedade.
                Porém, a título de curiosidade histórica,  faz-se  necessário esclarecer que a Grécia não se configurava  um país como hoje o compreendemos, mas, uma série de cidades-estados, independentes entre si, que compunham o chamado Mundo Grego ou a Civilização Helênica; particularmente no seu Período Clássico, do ano 500 ao ano 338 a.C., com a bipolarização do Mundo grego entre Esparta e Atenas...E o conceito grego para Cidadania implicava alguns privilégios, sendo certo que nem todos os indivíduos eram laureados como cidadãos.
         Ao longo da história, o conceito de cidadania evoluiu, passando a englobar um conjunto de valores sociais que determinam o conjunto de deveres e direitos de um cidadão "Cidadania: direito de ter direito".
A etimologia da palavra cidadania vem do latim civitas, cidade, tal como cidadão (ciudadano ou vecino no espanhol, ciutadan em provençal, citoyen em francês). Neste sentido, a palavra-raiz, cidade, diz muito sobre o verbete.
O habitante da cidade no cumprimento dos seus deveres é um sujeito da ação, em contraposição ao sujeito de contemplação, omisso e absorvido por si e para si mesmo, ou seja, não basta estar na cidade, mas agir na cidade.
A cidadania, neste contexto, refere-se à qualidade de cidadão, indivíduo de ação estabelecido na cidade moderna. A rigor, cidadania não combina com individualismo e com omissões individuais frente aos problemas da cidade; a cidade e os problemas da cidade dizem respeito a todos os cidadãos.
Assim colocado, percebemos que ambas as palavras, Política e Cidadania giram em torno da ideia de cidade...(pólis e civitas) e se complementam em seus exercícios.
A significação da Política em nossas vidas (e sobre esta já refletimos em outra oportunidade) está bem registrado em nosso cotidiano e em linguagens diferentes; afetando todos os aspectos da vida de uma pessoa e dos cidadãos.  E quanto mais o homem se politiza, mais humano ele se torna...
Em termos de Brasil, em se falando de Cidadania, e sobrevoando a nossa História, as primeiras tentativas de cidadania surgiram no contexto mercantil-colonial, com as chamadas rebeliões nativistas (Quilombo dos Palmares, Emboabas - aqui nas Minas-, Mascates, Beckman, Amador Bueno, Villa Rica) e depois as emancipacionistas (Inconfidentes, Alfaiates...), todas largamente reprimidas pelo Poder absoluto e colonialista. Já Império, os principais movimentos de Cidadania ficaram por conta das rebeliões regenciais, que não aceitavam os abusos do poder central e a indefinição do Estado monárquico após a independência.
Transportando o tema em questão para o nosso tempo; salta-nos aos olhos a incapacidade de muitos de exercer direitos e cumprir deveres; o que caracteriza a marginalização do sujeito do centro para a periferia da sociedade. É o deslocamento do centro para a margem e que geram todas as formas de desajuste.
E quem não é cidadão é marginal, ou seja, encontra-se excluído, à margem da sociedade; está deslocado e precisa ser reconduzido ao centro referencial da Sociedade, antes que outras forças, que não são o Estado de Direito o cooptem para seus guetos; como vemos acontecer nas grandes metrópoles brasileiras.
Tal processo, de reinserção do cidadão ou mesmo a construção de uma consciência política e de pleno exercício da cidadania é essencialmente educativo e não depende somente da disposição e da vontade individual. É preciso, na maioria dos casos, de uma base motivadora sólida de recursos morais e materiais. Tanto a socialização natural como a reinserção social são uma responsabilidade coletiva, uma ética do gênero e da condição humana.
No Mundo Contemporâneo esse conceito universal – meio utópico, meio legal – de Cidadania, pelas narrativas jurídicas liberais vêm se tornando gradualmente uma realidade social na maioria dos países, efeito da globalização da economia e dos intensos fluxos migratórios em todo o planeta. Surge a partir da década de 1990, com o fim da Guerra Fria, a ideia do Cidadão do Mundo. O predomínio do poder dos Estados e dos conglomerados financeiros cede lugar para o novo poder empresarial e pessoal do Homem.
As principais decisões mundiais não mais tomadas na ONU, mas no Fórum Mundial Econômico (Davos) e também no Fórum Social Mundial, que buscam e lutam por uma cidadania plena e pela politização dos conceitos de responsabilidade social de sustentabilidade.
Cultura plural, política correta, economia sustentável, empresa responsável e cidadã são alguns das principais ideias agregadas ao conceito tradicional de Cidadania.
Tudo isto posto, surge a pergunta óbvia:  como exercer então a Cidadania?
Bem, o modo clássico do exercício da Cidadania é através do voto. E é bom esclarecer aqui que embora muitas vezes utilizados como sinônimos; voto, sufrágio e escrutínio possuem significados diferentes. Sufrágio é o direito de votar e de ser votado; voto é a forma de exercer o direito ao sufrágio; e escrutínio é a forma como se pratica o voto, seu procedimento. Mas, no início destas linhas, mencionamos a palavra Educação.
Como professor que sou, eis um de nossos múltiplos desafios...
Porque precisamos educar para formar Cidadãos sim; porém, não somente. Não exclusivamente.
No nosso país, vamos colecionando muitos enganos nas Políticas Públicas.  Educar para a Cidadania. Sim! Lógico que sim! Mas…não se pode centralizar a Escola apenas nesta questão…é um tema transversal. E que deve ser trabalhado em todas, repito, em todas as disciplinas da grade curricular, que já vem pronta e acabada para ser adotada em todos os estabelecimentos de ensino; principalmente nos públicos.
No caso em particular deste articulista, com disciplinas como História e Sociologia é quase que inerente à própria matéria se falar, se demonstrar, se orientar para o exercício da Cidadania, afinal, foi através da História que todos esses direitos foram sendo conquistados e sedimentados no seio da sociedade.
Porém, pontuamos que, a Educação, tal qual a conhecemos, orientada para a formação técnico-profissional de indivíduos capacitados para atuar na reprodução do modelo econômico vigente, faz-se deficiente no que se refere à formação de cidadãos com capacidade de atuar na transformação da realidade socioambiental.
Se o modelo educacional tradicional valoriza a obediência, a decoreba de conteúdos, a imitação de antigos paradigmas, a mera repetição de papéis; ele não contribui para a formação de cidadãos críticos, autônomos, capazes de fazer suas próprias escolhas, e de atuar em um ambiente democrático de forma ativa, assumindo seu papel de ator social e político.
Neste ponto é fundamental o papel do professor: contribuir de modo eficaz para a formação de excelentes profissionais sim e igualmente de cidadãos críticos e atuantes, capazes de transformar as realidades sociais. Educar para conseguir alcançar o íntimo do aluno, despertando-o para o desejo e a busca do Conhecimento de si mesmo e da Vida, e fornecer-lhe os valores (honestidade, ética, coerência, etc.) que nortearão o seu caminho, bem como os meios necessários para que possa modelar o seu próprio destino e contribuir para uma Sociedade mais justa e igualitária para toda a Humanidade.
Precisamos, portanto, reitero, de uma Educação baseada em valores universais (honestidade, respeito à diversidade, tolerância, diálogo, democracia, ética, paz, cooperação, solidariedade, participação...) válidos para todos, não apenas para a minha própria nação. Estamos tratando aqui de uma Educação que contribua para uma cidadania completa e ativa: “A educação deve contribuir para a autoformarão da pessoa (ensinar a assumir a condição humana, ensinar a viver) e ensinar como se tornar cidadão. ” (MORIN, Edgard). E não uma Educação destituída dos valores que a Humanidade levou milênios para construir....
Temos, portanto, um tripé de instrumentação civilizatória que deve e precisa se complementar: Educação, Política e Cidadania. Através dos processos educacionais se constrói a consciência política que será levada a efeito através do exercício pleno da Cidadania.

*   Bacharel em Direito/ Licenciado em História pela Universidade de Itaúna
      Diretor da E.E.”Profa. Gilka Drumond de Faria”
        
 
 Acervo: Shorpy         

segunda-feira, junho 05, 2017

ITAÚNA: O SEXO NOSSO DE CADA DIA


Prof. Luiz MASCARENHAS*
         
Assistimos em nosso país a uma grande e ruidosa efervescência de assuntos ligados ao sexo.
         Sexo é assunto ruidoso mesmo, um tanto quanto barulhento. Dizem que o mineiro trabalha em silêncio; creio não ser este o caso...
         Como costumo asseverar, não sou o dono da “verdade” e nem pretendo aqui pontificar nada sobre tão delicado tema; apenas coloco minhas toscas divagações para o deleite dos meus caríssimos leitores.
         Com relação ao tema “Ideologia de Gênero” posiciono-me firmemente contrário a possível aprovação do malfadado projeto. Não adentrarei em questões ideológicas ou filosóficas, porém apenas afirmo a crença biológica de que se nasce homem ou mulher. Se o ser que nasceu é dotado de um pênis e produz testosterona (XY), logo é um homem ou macho. Se, apresenta uma vagina e produz progesterona e estrogênio (XX), trata-se de uma mulher, uma fêmea. Tópico a se considerar também é a inadmissível intromissão do Estado no tolhimento do poder familiar (antigo pátrio poder).
         Já a SEXUALIDADE humana é um outro assunto; muito diferente da questão de gênero. Ou seja, se a pessoa irá se relacionar afetiva e sexualmente com os de seu mesmo gênero ou do oposto (e disto decorrem as distinções: homo= igual ou hétero= diferente) isso é outra realidade. Cada ser humano; uma vez amadurecido em suas ideias e/ou dotado de sua inteira capacidade intelectual sabe de si, sabe reconhecer-se em suas relações afetivas e sexuais. Não se trata de uma questão de “opção” e sim da própria essência do ser., porém, nascesse homem ou mulher; biologicamente falando.
         Cada indivíduo faz de sua vida aquilo que achar melhor e ninguém tem nada com isso; desde que respeitados os limites para com o seu semelhante; bem como a salutar convivência na sociedade. E claro - óbvio ululante-  que devemos ser coerentes a nós mesmo; às nossas crenças, às nossas   idiossincrasias, ao nosso projeto de vida.
         Mas, neste final de semana próximo passado, assistimos outro assunto emergir das mídias e infestar as redes sociais, particularmente o facebook, provocando um surtar de cores, apupos, devaneios e iras.... o CASAMENTO GAY, aprovado nas terras do Tio Sam.
         Particularmente não entendi o porquê de tanta euforia diante de um fato ocorrido no exterior; visto que aqui em nosso país, o casamento gay já é uma realidade desde 2011; com algumas diferenciações legais.
         Até aqui, na nossa bucólica e pacata Sant’Ana do Rio São João Acima, tivemos esta modalidade de enlace acontecendo no Cartório do Lauro do Jubito, sob a lavra da Rosa Miriam Braz de Mattos e Souza Leão (nome digno de uma duquesa do Império...).
         O reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo no Brasil como entidade familiar, por analogia à união estável, foi declarado possível pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 5 de maio de 2011. Desta forma, no Brasil, são reconhecidos às uniões estáveis homo afetivas todos os direitos conferidos às uniões estáveis entre um homem e uma mulher.
         Desde então, as uniões do mesmo sexo utilizam-se das disposições de diversos princípios constitucionais. A coabitação brasileira (uniões não-registradas) é uma entidade real reconhecida juridicamente, que concede aos parceiros direitos e deveres semelhantes ao casamento, como o direito à adoção, assim como todos os benefícios e regras do casamento, como pensões, herança fiscal, etc.
         No dia 14 de maio de 2013 o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) aprovou uma resolução que obriga todos os cartórios do país a celebrar casamentos entre pessoas do mesmo sexo.
         Porém é bom lembrar que as LEIS asseguram apenas a legalidade; tornam as coisas formais perante o Estado. As situações já existiam antes das Leis...apenas se revestem do manto da Legalidade e ficam assegurados os Direitos Civis.
          Entretanto, a LEI não altera o PRECONCEITO. E preconceitos levam gerações inteiras para serem erradicados. Basta perceber a situação dos NEGROS no Brasil...e o preconceito que há para com os POBRES.
         Cidadão rico, com carrão importado e apartamento de luxo é bem recebido em qualquer lugar; com sorrisos e mesuras e no máximo será tido como “excêntrico” ou homo afetivo – dizendo-se o politicamente correto. Se é pobre; é bicha, viado, sem vergonha e sei lá mais o que....
          O caminho a ser trilhado contra o preconceito deve ser o da Paz, da Tolerância, do Respeito e do Diálogo por todos os membros do tecido social. Tudo o que está no Mundo, já existe há milênios.... Não será porque aprovou-se uma lei (e no estrangeiro) que se incentivará alguém para esta ou aquela conduta.
         Preocupa-me as distensões que tudo isto está causando; se andarmos pelo caminho sinuoso da intolerância colheremos certamente   ainda mais violência.
         Não há nada mais natural do que as mudanças sociais; elas surgem na esteira das mudanças econômicas e políticas.  A História nos mostra isto, e como disse, todos esses comportamentos já existiam há milênios e correm   velados, acobertados pela hipocrisia da sociedade humana; que ao mesmo tempo que os produz, os rejeita ou mesmo finge que não existem.
          Concluindo: a Humanidade precisa ainda evoluir e muito! Mal saímos das cavernas...
         E há por trás de tudo, grandes manipulações ideológicas que jamais saberemos ou as sentiremos agindo em nossas vidas, pois as cordas são muito sutis.
         Se faz mister   salientar também nesta temática que a SEXUALIDADE é íntima ao indivíduo. É da vida particular de cada um. Sexualidade não é pública. Não há a menor precisão de se colocar uma placa sobre a cabeça e  identificar-se  como   isso ou aquilo; a isto dá-se o nome de   PRIVACIDADE;  que é inclusive assegurada e protegida pelas Leis de nosso país.
         Não há meios, portanto, para se obrigar a ninguém declarar publicamente a sua sexualidade. Mesmo que a percepção desta seja óbvia. Ou seja, quem quiser permanecer no “armário”, permanecerá tranquilamente – de acordo com as suas conveniências; principalmente nestes dias frios...Afinal cada um sabe de si; de suas condutas e se resolve com sua consciência.
         Ninguém se apresenta dizendo: “prazer, eu sou o fulano, sou hetero...ou homo...ou bi...ou poli”. A necessidade da autoafirmação pode ser patológica inclusive.
         O Ser Humano é muito mais que a sua sexualidade.
         Nossa sexualidade não interessa a ninguém. Interessa ao outro, caso tenha de conviver com a sua pessoa, se você é um ser humano correto, honesto, íntegro, verdadeiro, sincero, competente em sua área de trabalho; se   não é dado a fofocas e nem a intrigas e nem age com falsidade ou leviandade. O resto é a sua vida particular; sua intimidade, sua privacidade.
         E ninguém se aventure a ser juiz do outro. Todos somos iguais: sujeitos a acertos e erros. “Não julguem os outros para que vocês também não sejam julgados. Pois da mesma maneira como vocês julgam os outros, também serão julgados e à medida que usarem para outros, essa será a mesma medida que Deus usará para vocês” Mt  7 1, 2.
         Resta-nos, neste tumultuado momento de nossa História, oxigenar as nossas ideias, sem abdicar de nossos valores e juntar esforços para a construção de mundo mais humano, mais justo, mais fraterno para todos.
"Après moi, le déluge"

*bacharel em Direito/Licenciado em História
pela Universidade de Itaúna

Acervo: Shorpy

ITAÚNA: ROUBO NA CASA SALDANHA


Sem desdouro para as demais, a Casa Saldanha era uma das melhores de Itaúna. Na rua Silva Jardim, ao lado da Farmácia do Ary Coutinho, quase na praça principal. Pertencia a Heli Saldanha.
Numa segunda feira, não sei precisar o ano, a cidade ficou estarrecida. A Casa Saldanha tinha sido roubada no fim de semana.
Notícia na Rádio Clube, entrevista ao vivo com o dono, entrevista com o delegado. Roubo profissional. Entraram pelo telhado e desceram pelo alçapão do forro de madeira. Usaram uma escada de corda de sisal. Sem bagunça, sem arrombamento. Sem barulho e sem sujeira. Naqueles tempos, até os ladrões eram educados.
A população ocorreu em massa para ver a cena do crime. A mando do delegado, o singular "Tiao Secreta", tudo foi preservado intacto. Os peritos criminais chegariam de Belo Horizonte para recolher digitais (se houvessem) , pistas, a escada de corda e tudo mais que pudesse levar ao destino dos larápios.
Heli Saldanha, gordinho e avermelhado, não se cansava de lamentar as perdas. Roubaram joias, relógios e aparelhos de rádio. Relógio era muito caro e radio idem. Joias nem se fala.
A porta da loja, fechada para vendas, mais parecia romaria na igrejinha do Bonfim no mês de maio. A entrada dos ladrões se dera por um alçapão bem na frente da casa de comércio. O forro aberto, a escada de corda de bacalhau dependurada e um cordão de isolamento em meia altura, isolando a entrada de curiosos.
A cena ficou em exposição dois ou três dias. Veio gente da roça para ver o inusitado. Venda recorde de pães doce e picolés de groselha. Feita a perícia, a cidade foi voltando ao normal. O roubo serviu de estratégia de marketing para a Casa Saldanha. Quem podia, corria para fazer compras na loja que fora roubada. Afinal, era primeira vez que algo tão importante ocorria em Itaúna. Comprar num lugar escolhido a dedo por ladrões refinados era sinônimo de bom gosto.
Em tempo: ainda não se em marketing. Usava-se falar propaganda. Uma evolução: anos antes era " reclame".

*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o blog Itaúna Décadas em 05/06/2017.
Acervo: Shorpy


ITAÚNA: OS UMBRAIS DO TEMPLO

Luiz Mascarenhas

Eia pois, ante meus olhos
Os umbrais do templo
Templo de templos 
Da minha Itaúna
Transponha os umbrais do templo
Do venerando templo
E transporás o tempo
Tempo dos tempos
Da minha Itaúna
Do tempo sem tempo
Do  eterno tempo
Dos sinos do templo
Do toque das almas
Do toque das coisas
Do toque do vinho
Do toque da música
Do toque de Deus
Do toque do Amor...
Das janelas mudas do templo
Fitam-nos os tempos de outrora
Como olhos curiosos
Repostos sobre o tempo de agora
Outros sons
Outras gentes
No mesmo eterno
Na mesma Arte
Na mesma sede
Na mesma faina
No mesmo viço
É  Vida que se renova
É Vida que grita ao Eterno
Eterno da Fé
Transponha os umbrais do templo!
Vinde...veja...ouça...sinta!
O Tempo sem tempo 
Pelos umbrais do templo...
Do venerando templo...
*da Academia Itaunense de Letras



Fotografia: Adilson Nogueira


ITAÚNA: OUTRAS PALAVRAS NA INFÂNCIA


Xumbú, Catiterê, Lubaroso, Clif, são algumas palavras típicas inventadas na minha infância. E se eu disser que em tempo de frio o “xumbú” de seu cachorro ficará gelado, você pode acreditar! Xumbú foi uma palavra inventada pelo Dóse, meu irmão. Segundo ele xumbú é focinho de cachorro, ou gato, ou de outro mamífero. Não sei de onde ele tirou isto, mas é; então saiba que seu animalzinho de estimação é também portador de um xumbú.
         “Catiterê” é também uma palavra inventada pelo Dóse, e que às vezes eu ainda uso. Quase todos os gatos e cães têm um catiterê enorme. Adivinhou? Nunca né? Pois bem, catiterê é sobrancelha de cachorro, ou gato. São aqueles pelinhos, tipo sobrancelha, que ficam plantados em cima dos olhos dos bichos.
         O Dóse era criativo, não sei de onde ele tirava estas palavras. Outra que é de autoria dele é “Lubaroso”, quem conhece um? Nesta criação eu tive um pouco de participação, em sua formação e difusão.
         Havia um tio do meu pai, o Enéias, que a gente chamava de Tio Néia, ele era lubarosíssimo. Ele era daqueles lados da serra do minério, e às vezes dormia em nossa casa quando vinha à cidade. Usava sempre, pelo menos dois relógios em cada pulso, um chapelão, e roupas estampadas ou xadrez. Portava crucifixos, pulseiras, colares e um inseparável e sempre alto rádio de pilha, sintonizado nos piores programas sertanejos. Cinco da manhã, a gente era acordado pelo rádio do Tio Néia, com o locutor berrando num sotaque caipira.
         O Lubaroso é aquele sujeito, “Jeca aculturado”, que não se distanciou de suas raízes, mas que teve contato com a vida urbana, incorporando alguns de seus elementos (ufa!). O lubaroso ainda usa palavras do vocabulário Rocês, tais como: em riba, cacunda, antonti, nóis, osêis, isturdia, etc; porém, é metido a ser moderno e bonitão, e o bonzão do pedaço!
         Um bom lugar para encontrar lubarosos é em festa de rodeio. Mas lubaroso que é lubaroso tem que usar chapéu preto, à la Valdique Soriano – o rei dos lubarosos. Já o Falcão (cantor e apresentador), é um “Lugregoso” que é igual a lubaroso + brega; o “brega” todos já conhecem né? Em suma: o lubaroso é um “sub-brega”, o qual ouve somente música caipira ou sertaneja. Ainda hoje esta palavra faz parte do meu dicionário pessoal, porém abreviada para “luba”.
         O “Clif” também foi uma palavra inventada na Godofredo, acho que foi o Marco Túlio (Buzão) quem apareceu com ela. “Fulano é um clifador!!” “Clifaram meu melhor jogador de botão! ” “O juiz clifou o jogo do galo (pra variar) ”.
         A gente, quando criança, clifava muitos selos de chumbo dos relógios da Cemig, eram para fazer peso para nossos goleiros de jogo de botão, feitos de caixas de fósforo. Clif, segundo o dicionário da Godofredo, é o mesmo que roubo, afano; clifar é tomar o que não é seu. Então cuidado, não vá votar num político clifador!
         “Escrululufe”... Esta é muito boa! Esta nasceu não sei de quem, acho que te todos... Antes era “bululufe”, virou outras coisas até chegar em “escrululufe”. Se quisessem falar que você fez sexo com alguém diriam que vc “escrululufou”alguém. “Escrululufe”, é o mesmo que “fazer aquilo”, “Furunfar”, “Rala&rola”, etc.
         Havia, também palavras usadas na rua que eram do vocabulário de gírias faladas nos quatro cantos da cidade. Algumas em extinção hoje, mas com certeza você já ouviu falar, como por exemplo, “leiteiro”. O sujeito “leiteiro” é um puxa-saco de carteirinha. Então, se no meio da turma alguém puxava saco para um, os outros começavam o coro: “ao leite, ao leite, leite, leite”. Pessoalmente, sempre tive e tenho horror à “leiteiros”, principalmente os leiteiros que rodeiam políticos.
         E era assim, aquele pedaço era um caldeirão de criatividade e invenções linguísticas, onde brincar com as palavras e os costumes era normal e prazeroso.
         Enfim, todos inventavam e transformavam palavras que cada vez mais, procuravam traduzir a exatidão de atos e situações. Nesta de inventar, nasceram também muitos apelidos interessantes, mas isto é assunto para um outro capítulo...


Texto: Pepe Chaves — Desenhista, pesquisador, ufólogo, músico, documentarista e jornalista.
Digitação: Ana G. Gontijo e Ícaro N. Chaves
Organização: Charles Aquino
Acervo: Shorpy


domingo, junho 04, 2017

JOANEL: FUTEBOL INFANTIL EM ITAÚNA


Em meados dos anos 70, eu e o Joacy resolvemos fazer um time de futebol. Sua mãe, Dª Itajacy sugeriu que se chamasse “Joanel” (Joacy + Daniel), a junção do nome de seus filhos. Aceitamos o nome e chamamos os craques para compô-lo. No gol (usando minha velha camisa amarela de goleiro) ficou o Bráulio (Marvel), primo do Joacy, e ainda. Alisson (Ratinho Kibel), Joel (Audipeças), Marco Antônio e Môl. (Relogiaria Longines), Tulé (Marcus Vinícius), Xará, Dóse, eu, e outros que passaram por lá eventualmente. Os jogos eram no Campo do Esporte, hoje, Centro Esportivo da Universidade de Itaúna. Nossos times rivais eram: o time do Fernando, com Dênio Tarabal & Cia; O Piranhas Futebol Clube, do Gleider e Claycon Bustamente; e ainda o time do Marlus, Walmir Lute e Cia.
O Bráulio não era goleiro nato, mas fez grandes defesas, e o Joacy (que depois se tornou goleiro do América-MG) não era grandes coisas na linha, ia dando seus bicões. Porém o time mais vencia que perdia, todos os jogos tinham suas datas anotadas em um livro, artilharia e tudo mais. O juiz na maioria dos jogos era o Careca, um sarará simpático que sempre aparecia no campo na hora de nossos jogos.
O Joanel tinha uma grande dupla de ataque, que era impossível sair de um jogo sem fazer gol: Pepe e Alisson. Eu me lembro bem deste parceiro que me ajudou a fazer vários gols naquelas inocentes tardes de domingo.
  
Texto: Pepe Chaves — Desenhista, pesquisador, ufólogo, músico, documentarista e jornalista.
Digitação: Ana G. Gontijo e Ícaro N. Chaves
Organização: Charles Aquino
Acervo: Estadão de São Paulo