sábado, abril 29, 2017

sexta-feira, abril 28, 2017

quinta-feira, abril 27, 2017

O PADRE, O DIABO E O VEADO

Em pesquisas sobre a cultura popular, especialmente em Minas, o historiador itaunense João Dornas Filho, nos fornece estudos sobre a natureza das lendas e sua popularização. O historiador diz que, o Diabo, por ser peça relevante no imaginário de um povo, não deixaria de figurar na demologia brasileira. 
Dornas informa que o Diabo no lendário do povo português é encarnado por vários nomes:
Diabrete, Diacho, Danho, Dialho, Decho, Demo, Demonho, Demontes, Satanás, Mafarrico, o Inimigo, O Inimibo-mau, o Porco-sujo, Barzabu, Barzabum, Veneno, Bicho-feio, o Calheiro, o Previnco, o da Carapuça Vermelha, o Trasgo, o Manquito, O Zangão, o Cão-tinhoso, o Pedro Malazartes, o Pecado e o Ferrapeiro. No Brasil, há outros nomes: Cachia, o Capiroto, o Famalial, o Capeta, entre outros.  A palavra Capeta é tida como brasileiríssima e que ficou “tradicionalmente representado por um homem de capa preta, donde, possivelmente, a expressão “o homem de capa preta”, ou abreviadamente “o capeta” (DORNAS, 182).

No início do século XIX, um padre que havia se desviado dos caminhos do Senhor e era residente no arraial de Sant’Ana de São João Acima, hoje Itaúna, apareceu sob forma de um veado.
Na paróquia de Sant'Ana havia o pároco, o Revdº Antônio Maximiano de Campos e o padre Delfino.  Certa certa vez, o padre saiu para caçar em companhia de seus cães em um domingo pela manhã. Os caçadores correram toda manhã atrás do veado, todavia, o animal não deixava rastro e os farejadores começaram a cansar.
No meio do matagal, já desiludido e rezando algumas Ave-marias para São Longuinho, o padre já dava por perdido à caça ao Demonho, todavia, eis que surge o Mafarrico ao alcance da mira da espingarda do padre Delfino. O atirador não pensou duas vezes, apertou o gatilho o mais rápido possível — click, click, click, a espingarda negou o maldito fogo e o veado fugiu!!!
Ao examinar novamente a arma, o padre Delfino verificou que, “a escova estava umedecida por líquido catinguento, que não podia deixar de ser mijo do Diabo”. (DORNAS, p.194)



Referência: FILHO, João Dornas. Achegas de etnografia e folclore. Imprensa Publicações. Belo Horizonte, 1972.
Pesquisa e elaboração: Charles Aquino, graduando em História 7º período, UEMG/Divinópolis.



terça-feira, abril 25, 2017

segunda-feira, abril 24, 2017

quarta-feira, abril 19, 2017

ITAÚNA: QUERMESSE, SEBASTIÃO E TAQUI!!!



As festas religiosas em Itaúna nas décadas de cinquenta e sessenta eram uma boniteza. Verdadeiro instrumento de confraternização da cidade com seu povo, sem distinção de classe social, cor ou pensamento político. Nos dias de hoje, fala-se muito em " inclusão social", segregação e minorias. Os teóricos de hoje deveriam se inspirar naqueles tempos antes de espalharem pregações, que no meu sentir, acabam sendo excludentes e fomentadores de rancores e divisão social.
No entanto, deixemos de lado as digressões e vamos ao que interessa:

Festa de São Sebastião!!!

Eram no mínimo quinze dias de festejos. Não sei qual a razão de tanto prestígio do "Mártir da Capadócia", mas ele era, ao lado dos santos de junho (Antônio, João, Pedro e Paulo), um dos de " maior audiência " e não ficava nada a dever a Nossa Senhora Sant'Ana, padroeira de Itaúna no mês de julho.
Barraquinhas armadas na praça dr. Augusto Gonçalves. Leilões de prendas e ofertas todo dia a noite. Nos fins de semana, leilão de bezerros, novilhos, leitões e cabritos. Tudo doado ao Santo, por fazendeiros e agricultores da cidade. Animais a vista, podendo ser admirados e cobiçados pelos arrematantes. Ficavam num curral improvisado, ao lado das barraquinhas. Eram tratados ali mesmo e de lá saiam para o sítio ou fazenda do novo dono, disputados acirradamente nos leiloes apregoados pelo saudoso Mineirinho, da famosa dupla caipira da Rádio Clube de Itaúna.
Nem me lembro direito de como funcionava o serviço de som. Só sei dizer que os animais eram anunciados pelo leiloeiro, que anunciava também o nome do doador. Era aí que a disputa se tornava aguda. Dornas a disputar com Penidos, Francos a disputar com Nogueiras e quem sempre lucrava era São Sebastião. Disputa honesta e bem animada pelo pregoeiro. Levava quem desse mais, pagamento na hora, sem prestações, cheque pré-datado ou cartão de crédito. O Santo não tinha bandeira. Valia sempre o velho e bom dinheiro.
Música ao vivo, a cargo do "Regional do Irmãos Barão", com fôlego para toda noite. Às vezes, incluindo Dante de Faria Matos no bandolim, Freitas Alfaiate no piston, Donato no saxofone e Argemiro Ferreira da Silva no trombone de vara. Noutras noites, a família do João Bigode e seus filhos que tocavam violão e violino.
Foguetório toda noite a cargo do "Parente", que era fogueteiro e coveiro. Foguetes de vara qual subiam assoviando e levavam atrás a molecada a correr para apanhar o rabo do foguete.
No sábado à noite e no domingo tinha também pau de sebo, quebra pote, pega porco e outras brincadeiras. Divertimento sadio, cidade e redondezas reunida. Povo da roça fácil de identificar pelas botinas, roupa de brim caqui ou calça "porta de loja". As moças com as bochechas coradas de "rouge" e na falta dele, coradas com o papel crepom molhado. Consumo dobrado de pão doce, pão de sal e picolés de groselha. Um achado para o Bar Azul e para a Padaria do Vasco.
E o tal jogo itaunense?
Tratava-se do Taqui. Simples, honesto e rápido. Antes de cada rodada, eram vendidas as papeletas com sete letras espalhadas. Três em cima, três em baixo e uma no meio. Os prêmios, dependendo do valor da papeleta e dos números dela vendidos eram bolos, frangos assados, pernil de porco ou garrafas de vinho jurubeba. Na melhor das hipóteses, um frisante Michelon.
Uma moça ajudava a rodar a "gaiola das bolinhas", tal e qual gaiola de bingo e sorteava as letras.
O cantador das letras era um caso à parte. Era um tal de T de Tauna, E de "Eliude", Z de "zoios" e C de Sebastião. Os jogadores iam marcando as letras cantadas. Quando coincidia ele ter marcado seis e cantavam a sétima que o premiava, o ganhador gritava eufórico:

" TA AQUI" !!!!!!

Eis a razão do nome do jogo. 

Em tempo: não me esqueci do Pe. José Ferreira Neto e de seu sacristão, o querido "Tio Juca". Eles merecem um capítulo à parte.




*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Crônica enviada especialmente para o blog Itaúna Décadas em 19/04/2017.


Acervo fotográfico original: Professor Marco Elísio Coutinho
Montagem & Arte: Charles Aquino


terça-feira, abril 18, 2017

ITAÚNA: CIDADE EDUCATIVA DO MUNDO


Prof. Luiz Mascarenhas*

         As cidades são a sua gente e as gentes formam as cidades... Não há como se falar do título de “Cidade Educativa do Mundo”, com o qual Itaúna foi laureada no ano de 1975, pela UNESCO/ONU, sem se mencionar o principal articulador desta importante conquista: o DR. GUARACY DE CASTRO NOGUEIRA; um itaunense apaixonado por sua terra natal; por sua História, sua Cultura, suas Tradições e Valores Humanísticos.
         E fomos visitar e pesquisar nos escritos e apontamentos (na Enciclopédia Ilustrada “Itaúna em Detalhes”, publicada em fascículos pelo Jornal “Folha do Povo”) do próprio Dr. Guaracy para contar esta História.
         Como reitor da Universidade de Itaúna, o Dr. Guaracy (seu cofundador, ao lado do Dr. Miguel Augusto Gonçalves de Souza) foi a única pessoa do interior de Minas Gerais, matriculado – a convite- na ADESG em Belo Horizonte, que fez o Curso da Escola Superior de Guerra.  Tratava-se de um grupo integrado por educadores de alto nível, membros do Conselho Estadual de Educação, chefes de departamento da Secretaria de Estado da Educação, professores universitários e empresários de projeção. Desta forma, os mesmos se inteiravam de importantes projetos do Governo para a área.  Em determinada ocasião, a chefe do Departamento do Ensino de 1.º Grau da Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais, Maria Auxiliadora de Araújo Campos Machado, auxiliar do Secretário de Educação, Agnelo Corrêa Viana, relatou ao Dr. Guaracy sobre um grande projeto estava sendo elaborado na Secretaria, para se escolher a primeira “Cidade Educativa do Mundo”, por decisão da UNESCO, em terras brasileiras e no Estado de Minas Gerais. Foi assim que o Dr. Guaracy teve o primeiro contato com o projeto “Cidade Educativa do mundo”, já no fim do curso e no início de 1974. Na verdade, se tratava de uma experiência de mobilização e integração de recursos comunitários para o desenvolvimento das atividades educacionais.
         O Projeto “CIDADE EDUCATIVA”, de nível mundial, resultou de um encontro em Paris, sede da UNESCO, dos ministros de Educação de todos os países integrantes da ONU, sob a liderança da Comissão Permanente para o Desenvolvimento da Educação, mais conhecida por Comissão Faure, criada em princípios de 1971. Eram seus membros  EDGAR FAURE (França), Presidente do Conselho, Ministro da Educação Nacional, Ministro de Estado para os Assuntos Sociais; FELIPE HERRERA (Chile), Professor da Universidade do Chile, Presidente do Banco Interamericano para o Desenvolvimento; ABDUL-RAZZAK KADDOURA (Síria), Professor de Física Nuclear da Universidade de Damasco; HENRI LOPES (República do Zaire), Ministro dos Negócios Estrangeiros, Ministro da Educação Nacional; ARTHUR V. PETROVSKI (U.R.S.S.), Professor e Membro da Academia de Ciências Pedagógicas; MAJID RAHNEMA (Irã), Ministro do Ensino Superior e das Ciências; e FREDERICK CHAMPION WARD ( U.S.A.), Conselheiro para a Educação Internacional da Fundação Ford.
         O objetivo era descobrir novos rumos para a Educação mundial.
         A partir dos anos 70, durante dois anos, os educadores debateram os graves problemas educacionais e assim se criou a Comissão Faure.
Surgiu a ideia, ou o sonho, da Cidade Educativa“um modelo alternativo de educação para a nova civilização planetária”. Modelo este consubstanciado no já famoso “Relatório Faure”, publicado sob o título de “ Aprender a Ser” (Apprendre à être). Um livro de 458 páginas, que na opinião de René Maheu, Diretor-Geral da Unesco, “verdadeiro inventário da Educação então existente, definindo uma concepção global de educação para o futuro, que não havia sido, ainda, objeto de formulação tão completa”.
         Minas Gerais contava então com 722 municípios. A Secretaria de Estado de Educação estava à procura da “Cidade Educativa”; aquela que conseguisse extrair de seu poder político, produção, riqueza e cultura, o mais intenso potencial de motivações e oportunidades para o desenvolvimento da educação, ciência e tecnologia na sua região, com ativa participação de sua gente, e em benefício de sua prosperidade, elevação moral e bem-estar. Desde 1972, com Agnelo Corrêa Viana na condução da Secretaria de Educação, desenvolvendo o projeto de Assistência Técnico-Educacional aos Municípios, liderava no Brasil a Reforma do Ensino, prevendo a progressiva passagem para a jurisdição dos municípios os recursos e serviços da Educação, especialmente aqueles do 1.º Grau. Por este motivo, ele, como Secretário de Educação, mais à frente dos demais colegas brasileiros, foi escolhido para representar o Brasil na reunião de Washington, junto a OEA, desejosa de implantar o Relatório Faure – Cidade Educativa – em terras do terceiro mundo. Europa e Estados Unidos com suas instituições tão conservadoras rejeitaram de pronto uma mudança tão radical nos seus sistemas educacionais.
         A Secretaria de Educação sabia que apenas uma percentagem mínima dos municípios mineiros poderia servir de campo de experimentação para implantar sua comentada reforma de “educação para todos e para cada um”. A meta principal era a promoção do desenvolvimento dos recursos humanos no município, para que este pudesse melhor equacionar seus problemas educacionais e melhor dispor de seus recursos materiais e financeiros, tendo em vista o progresso social, educacional, econômico e político.
         Sabendo que 151 municípios já tinham elaborado seu Plano Municipal de Educação, cidades grandes ou pequenas, modestas ou ricas, próximas ou distantes dos centros culturais foram consideradas para se fazer a primeira seleção para implantação da experiência-piloto de Cidade Educativa. Os envolvidos foram desafiados para demonstrar, eles mesmos, as inúmeras e inusitadas maneiras e condições de educar, com o aproveitamento ótimo e dentro das peculiaridades locais dos recursos de que podiam dispor.
         Na primeira fase da disputa foram selecionados, entre os 151 mencionados, 42 municípios, com base nos seguintes dez indicadores: força estudantil, alfabetização de adultos, participação política, volume de negócios, desenvolvimento global, universalização do primeiro grau, oportunidades de estudo oferecidos pelo município e pela iniciativa particular, recursos orçamentários do município para a educação, oportunidades de continuação de estudos no ensino do segundo grau e, por último, no ensino superior.  Nessa fase, tudo aconteceu em Belo Horizonte, à revelia dos municípios, baseando-se a comissão em dados colhidos em várias fontes.
         Neste interim, a Secretaria de Educação do Estado de Minas Gerais enviou um ofício para o então prefeito Hidelbrando Canabrava Rodrigues, comunicando que Itaúna estava entre as 42 cidades mineiras escolhidas para concorrer ao título de “primeira cidade educativa do mundo”. O prefeito estava ausente e, no exercício do cargo, o vice Adolfo Mendes Filho, a passou para o seu Chefe do Departamento de Educação e Cultura, Prof.  William Leão. Ao tomar conhecimento do texto recebido, sentiu que era preciso tomar providência urgente, para continuar concorrendo ao título, pois havia prazo estabelecido para se cumprir nova tarefa. Foi neste contexto que foi procurado o Dr. Guaracy de Castro Nogueira- reitor da Universidade de Itaúna – que já tinha uma expectativa a respeito do desafio, desde o tempo do curso da ADESG e aceitou a incumbência de dar prosseguimento ao trabalho.
         Na segunda fase, os 42 municípios foram desafiados a confeccionar um jornal, tamanho tabloide, formato 24×32 cm, papel de jornal, com 12 fotografias sob o título Nós Somos Cidade Educativa”, para que cada cidade manifestasse direta e espontaneamente sua capacidade, demonstrando como a comunidade era capaz de agir produtivamente no sentido da prosperidade e bem-estar do seu povo, ativando a educação, a ciência e a tecnologia. Três artigos obrigatórios foram exigidos, falando sobre o passado, o presente e o futuro do município; outros, sobre educação, saúde, letras e artes, política, folclore e esporte, tudo impresso pelo velho sistema de composição de tipos. O saudoso tipógrafo Avelino Carvalho Neto, nas Oficinas Gráficas da Itaunense, deu um baile, fez uma obra de arte. Os artigos de fundo ficaram a cargo de Osmário Soares Nogueira (passado), José Waldemar Teixeira de Melo (presente) e Guaracy de Castro Nogueira (futuro). Outros colaboradores: Miguel Augusto Gonçalves de Sousa (Universidade), Yvette Gonçalves Nogueira (Obras Sociais), David de Carvalho (Folclore, Reinado e Teatro), Afonso Max de Oliveira (Educação e Comunidade), Nilo Caetano Pinto e Sargento Hermenegildo Thram (Esportes), Cosme Silva (Literatura), William Leão (Política) e Jésus Ferreira (Música). O prefeito Hidelbrando Canabrava Rodrigues deu todo apoio, patrocinou o jornal, sob direção do Prof.  William Leão e Dr. Guaracy de Castro Nogueira. Prefeitura, Universidade, Empresas, Jornal “Folha do Oeste”, Rádio Clube, Rotary, a comunidade como um todo enfrentou o desafio, principalmente nas etapas que se seguiram.
         Apenas 19 cidades foram capazes de elaborar o competente jornal dentro do prazo, até 20 de fevereiro de 1975: Araxá, Ouro Preto, Caeté, Passos, Congonhas, Ponte Nova, Divinópolis, Pouso Alegre, Governador Valadares, São João Del Rei, Ipatinga, São Sebastião do Paraíso, Itabira, Uberaba, Itajubá, Uberlândia, ITAÚNA, Varginha, Juiz de Fora. Muitas cidades foram eliminadas, não porque deixaram de fazer o tabloide, mas porque o fizeram de outro formato, papel de qualidade superior, número de páginas em desacordo com o padrão exigido, fotografias coloridas, ou então fotografias em número inferior ou superior ao determinado. Posteriormente, conseguimos o exemplar das 19 cidades vencedoras e ouvimos de membros da comissão julgadora que o melhor tabloide foi o de Itaúna, porque atendeu religiosamente, às exigências estabelecidas.
         Foi organizada uma comissão de especialistas, inclusive com personalidades da OEA (Organização dos Estados Americanos), de outros países, da área de Comunicação, professores, membros do Conselho Estadual, da Secretaria e do Ministério da Educação, sob a coordenação da Universidade do Trabalho (UTRAMIG), para dar mais uma “peneirada” nos 19 até então selecionados. E por fim, só restaram 16 cidades. Novo esforço foi realizado, desta feita levando em consideração os tabloides apresentados. Antes, no exame que se fez deles, levou-se em consideração apenas os aspectos formais e de apresentação gráfica, segundo as exigências feitas.  Os 16 jornais foram repartidos entre os membros da Comissão para um aprofundado estudo do conteúdo de cada um deles. Pesou na análise os três principais artigos a respeito do passado, do presente e do futuro de cada uma das comunidades. Foram selecionadas apenas oito cidades, quase na reta final. Novas reuniões se realizaram, consultas foram feitas a vários órgãos da administração, contabilizaram-se dados estatísticos, reexaminaram todos os artigos dos tabloides, selecionando as quatro semifinalistas. Itaúna recebeu com enorme entusiasmo o resultado divulgado para todo o Estado, através de todos os meios de comunicação: jornais, rádios e televisão. Itaúna, São João del Rei, Itabira e Uberlândia estavam no páreo.
         As quatro cidades selecionadas foram notificadas que seriam visitadas pela Comissão Julgadora, a fim de se apurar “in loco” o que se escreveu nos tabloides. A visita seria de um dia inteiro, principalmente para sentir se a população estava acompanhando o desenrolar da disputa e se queria ser mesmo uma Cidade Educativa. Para a Comissão o contato com as lideranças, os documentos e os dados estatísticos não era suficiente. Importante era ouvir a comunidade, a voz do povo a gritar “queremos ser Cidade Educativa! ” E nunca houve – na História de Itaúna - um envolvimento; uma mobilização tão grande da população em torno de uma causa.
         Para a comissão importavam as questões essenciais, verdadeiras questões de substância: relação entre a Educação e a comunidade; entre a Educação e o educando, entre a educação e o saber, entre os fins declarados e os fins realizados. No “Aprender a Ser”, relatório orientador para se buscar a CIDADE EDUCATIVA, urgia tornar realidade que a “Educação é, ao mesmo tempo, um mundo em si e reflexo do mundo”.
         Dentro desta ideia, a comissão se dirigiu para Itaúna, para sentir se Itaúna era capaz de considerar que existe -com efeito-  uma correlação estreita, simultânea e diferenciada, entre as transformações sociais do meio socioeconômico e as estruturas, os modos da ação educativa, mesmo porque a educação contribui funcionalmente no movimento da história.
         O título que se disputava não era visto como uma medalha, nem diploma, muito menos se esperava uma verba expressiva do governo! ITAÚNA queria apenas ter a possibilidade de aprender durante a vida inteira, pois a ideia de Educação permanente é a pedra angular da CIDADE EDUCATIVA. Uma revolução através da qual queríamos implantar uma ideia mestra para as políticas educativas para dos anos vindouros.
         Houve uma intensa mobilização na cidade para receber a comissão de maneira festiva e grandiosa. Os jornais e a Rádio Clube de Itaúna (única rádio existente à época) começaram a conclamar a população para receber a visita da Comissão.         Na sexta-feira da paixão, em plena procissão do enterro, naquele ambiente solene da Semana Santa, após o canto da Verônica, para uma multidão de mais dez mil pessoas, com o apoio do Cônego José Ferreira Netto – então Pároco de Sant’ana-  o Dr. Guaracy usou do microfone e fez veemente apelo para que todos comparecessem na terça-feira seguinte, 4 de março, portando faixas com os dizeres, “Queremos ser Cidade Educativa”, a fim de se receber a Comissão Julgadora que visitaria a cidade. Tal atitude demonstrava o tamanho empenho dos líderes da cidade no envolvimento para a conquista deste título.
         A recepção da Comissão Julgadora foi apoteótica. Tiro de Guerra e Polícia Militar; banda de música, todas as autoridades dos três poderes presentes, líderes religiosos, alunos das escolas de todos os níveis, guardas de congado, times de futebol, professores e o povo a gritar “queremos ser cidade educativa”. A Comissão desceu no trevo e subiu a pé a rua Silva Jardim, aplaudida e ovacionada até chegar à praça defronte a Matriz, onde foram feitos vários pronunciamentos.
          As visitas começaram pelo Orfanato São Vicente de Paula. Tudo bem organizado e programado.  A equipe contava, entre outros, com o entusiasmo de Maria José Morais, Ana Alves, Zulmira Antunes, José Waldemar Teixeira de Melo, Luís Lage, Marco Elísio Chaves Coutinho e padre José Wetzels. Uma brilhante ex-aluna da Fundação São Vicente de Paulo, Elina Dirce, fez a apresentação da casa e de seus objetivos. Inteligente e de palavra fácil surpreendeu e recebeu o aplauso de todos. No Hospital “Manoel Gonçalves”, com a presença de todos os médicos, os visitantes descobriram a marca principal da comunidade. Em Itaúna, em matéria social, havia a marca da benemerência de filhos ilustres que deixaram suas fortunas, para resolver graves problemas comunitários, na área da Saúde e da Educação.
         A Comissão deslocava-se de um local para outro a pé, seguida de uma multidão, demonstrando sempre que a comunidade estava unida na busca da responsabilidade de ser Cidade Educativa. A Escola Estadual de Itaúna e o Colégio Sant´Ana demonstraram, através de manifestações da direção, de alunos e professores, o quanto a cidade estava preparada para enfrentar o desafio proposto.     No almoço de confraternização no “Rancho Guarany”, as lideranças presentes transformaram aquele encontro num autêntico debate na ânsia de conhecer, em profundidade, o verdadeiro sentido da conquista, não do título, mas da tarefa de ser Cidade Educativa. Em nome da cidade, no salão nobre do Colégio Sant´Ana, o reitor da Universidade, Dr. Guaracy,  traçou o perfil da comunidade, analisando sua história,  sua vocação para servir e, como, ao longo dos anos, enfrentou desafios de toda natureza, nas áreas industriais, comerciais e de prestação de serviços, conquistando louros através do trabalho comunitário, na implantação de empresas, num ambiente sadio de convivência harmônica entre trabalhadores e empresários, em que sindicatos patronais e de operários se uniam para o desenvolvimento da cidade. À tarde, na capela do Colégio Sant´Ana fez-se a apresentação cultural em que foram apresentados números musicais, executados por itaunenses, destacando-se Jesus Ferreira, no violino, e Affonso de Cerqueira Lima, no violão, dois intérpretes consagrados em seus instrumentos. Já anoitecendo, a Comissão se despediu, caminhando até a praça principal, sob os acordes dos instrumentos e o canto afinado dos seresteiros.
         Por fim, em duas reuniões, foram examinados todos os critérios e resultados. Os dados colhidos estavam em três grupos: A – Bem-Estar social:  Itaúna conseguiu 379,01 pontos e Itabira menos, 373,30 pontos; B – Iniciativas da comunidade para suprir deficiências no acesso da população aos serviços urbanos existentes: Itaúna conseguiu 282,80 pontos e Itabira menos, 238,29 pontos, e. C – Iniciativas da comunidade para participar na tomada de decisões; Itabira suplantou Itaúna, ela com 200 pontos e nós com 113,30 pontos. Saímos vencedores em dois grupos. No total eles ficaram com 811,59 e nós com 793,11 pontos. Diferença de 18,48 pontos, equivalendo a 0,018 (dezoito milésimos) do total de pontos. Porém, em Itabira, o número de sindicatos, de associações profissionais e de classe era muito maior. Em decorrência de tão mínima diferença, os representantes do MEC, UNESCO e OEA propuseram que não deveria haver distinção entre a primeira e a segunda colocada e que o título deveria ser dado às duas cidades no mesmo sentido de igualdade, proposta aprovada por unanimidade, transformando-se numa declaração oficial para ser lida, na sessão solene de encerramento do processo de escolha da Cidade Educativa.
         Foi no Auditório da Associação Médica de Minas Gerais que aconteceu a sessão solene de encerramento.  O regulamento previa uma decisão por pontos ganhos. Os dados até então apurados representavam 80% do total, cabendo os restantes 20% ao que fosse apresentado pelas cidades. Cada uma deveria apresentar um audiovisual com um tempo máximo de 20 minutos e uma palestra a cargo de um seu representante com o máximo de duração de 30 minutos. Ao audiovisual e à palestra seriam atribuídos pelos treze jurados notas, a fim de que se preenchessem os 20% restantes. Dentro, porém, do que havia sido unanimemente aprovado na reunião do dia 19 de abril de 1975, pela manhã, tomou-se a decisão do empate, mas a sessão transcorreu conforme havia previsto o regulamento, sem que as duas cidades soubessem do resultado já tomado em caráter definitivo. Itabira foi sorteada para apresentar em primeiro lugar seu audiovisual, em seguida coube idêntica tarefa a Itaúna. Falou o representante de Itabira, professor Romar Virgílio Pagliarini e, em seguida, o de Itaúna, professor Guaracy de Castro Nogueira.
         A Comissão Julgadora reunida com a totalidade de seus participantes presentes, por decisão unânime, leu a proclamação apontando Itaúna e Itabira com as primeiras cidades educativas do mundo!
         No dizer do Dr. Guaracy e que tem meu endosso e testemunho: ” O itaunense é um planejador frio, um lutador apaixonado; um vitorioso tranquilo, mas insatisfeito, sempre disposto a novos planos, novas lutas, novas vitórias. Homem equilibrado. Cônscio de riscos a vencer, parte decididamente em busca da vitória, superando óbices, antagonismos e obstáculos. É o que tem demonstrado, através dos tempos”.
         E salve a terra barranqueira de Sant’ana do rio São João Acima de Pitanguy – Itaúna – Comuna sempre brilhante!


*Bacharel em Direito / Licenciado em História pela UNIVERSIDADE DE ITAÚNA/ Historiador/ Escritor/ 1º Secretário da ACADEMIA ITAUNENSE DE LETRAS/ Autor de “Crônicas Barranqueiras” e coautor de “Essências” e “Olhares Múltiplos”/ Diretor da E.E. “Prof. Gilka Drumond de Faria”/Cidadão Honorário de Itaúna.


REFERÊNCIAS:

— Enciclopédia Ilustrada de Pesquisa: Itaúna em detalhes. Ed. Jornal Folha do Povo, 2003, p. 28 a 31.             
— NOGUEIRA, Guaracy de Castro. (In memoriam)

PESQUISA: Professor Luiz Mascarenhas, Charles Aquino.

TEXTO: Professor Luiz Mascarenhas.

ORGANIZAÇÃO & ARTE: Charles Aquino

ACERVO FOTOGRÁFICO: Prof. Marco Elísio Chaves Coutinho  


domingo, abril 16, 2017

GASOLINA E O CAIXÃO


Sou de um tempo no qual o único transporte para a zona rural de Itaúna, eram os caminhões leiteiros. Percorriam as fazendas e retiros recolhendo os latões de leite para serem entregues na Cooperativa Velha, que ficava na beira da linha da Rede Mineira de Viação.
Traziam o leite e levavam coisas, incluindo gente que vinha na Sede para comprar sortimento, tecidos, ir ao médico e em tempos de festas religiosas, acompanhar procissões, ir a rezas, pagar promessas e se divertir nas quermesses.
Naqueles tempos não existia proibição de viajar na carroceria. Todo mundo se arranjava no lugar da carga e lá iam comendo poeira, os homens segurando o chapéu e as mulheres as saias, por causa do vento. Velocidade pouca: estrada de terra e buraqueira não dava pra passar dos trinta por hora. Uma exceção era Itatiaiuçu. Para o principal distrito da cidade, sempre tinha caminhão de minério. Vazio na ida e cheio na volta. Todos os dias da semana.
Gasolina era o apelido de um lavador de carros e caminhões que trabalhava no Posto do Bossuet Guimarães. Nunca soube seu nome verdadeiro. Era o Gasolina e bastava para quem o conhecia. Prestativo, trabalhador e de boa paz. Cor indefinida, confundida na sujeira de seu trabalho. Óleo, graxa, barro, terra de minério ajudavam a moldar o personagem. Uma figura. Era bem conhecido, quase um tipo popular.
Num sábado, depois de dois aperitivos e uma marmita reforçada acedeu a um convite de um carreteiro para ir até o "Tatiaio". Não ia carregar minério. Levava umas encomendas para uma mineração e entre outras coisas, um caixão para um defunto lá do distrito. Não teve tempo de tomar banho e trocar de roupa. Faria isso na volta. Era sábado, podia tomar mais umas cachaças em Itatiaiuçu e na chegada tomar banho no posto e trocar de roupa.
Devido a sujeira, não quis ir na boleia. Preferiu a carroceria. Mais fresco, com vento na cara, podendo se esparramar à vontade no meio das tralhas, ao lado do caixão.
Logo que saíram da Vila Mozart, perto da fazenda do Zé Herculano, começou a chover forte. Gasolina não se apertou. Abriu o caixão, acomodou-se o melhor que pode, fechou a tampa e pouco depois " ferrou no sono". Efeito dos aperitivos, do cansaço e da boa marmita.
Mais um pouco a frente, o caminhoneiro parou e deu carona para algumas pessoas que iam para o Córrego do Soldado. Três homens, duas mulheres e dois moleques adolescentes. Gasolina continuava a dormir, fechado no caixão.
Alguns quilômetros depois, passada a Cachoeira dos Chaves, já sem chuva e com céu limpo, Gasolina acordou. Abriu a tampa do caixão de uma vez só e com os braços abertos, ainda assentado no ataúde, abriu os olhos e a boca com os dentes muito brancos.
Feito isso, fez menção de se levantar, já falando em voz alta e rouca:
" Eta ferro, parece que dormi demais!!!!"
Ainda com o caminhão andando, só houve tempo dos passageiros da carroceria pularem na poeira e rolarem no cascalho. Defunto feio levantando do caixão e ainda “estrumunhando”, nunca viram.
Muitos arranhões, roupas rasgadas, e nada de mais grave. De nada adiantou o dono do caminhão ter parado o veículo mais na frente e tentado correr atrás dos caronas que já sumiam no " provisório".
Lucro quem teve foi Gasolina: recebeu muitas missas por intenção de sua alma, mandadas rezar pelos caronas. Continuou a viver por muitos e muitos anos.

O Gasolina existiu de verdade. Era um boa praça. O caso é verídico.


*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. "Causo" enviado especialmente para o blog Itaúna Décadas em 14/04/2017.


quinta-feira, abril 13, 2017

SEMANA SANTA ITAÚNA 1898


SANT’ANNA DE SÃO JOÃO ACIMA: SEMANA SANTA - 1898

Tivemos o prazer de hospedar durante os dias da festa da Semana Santa aos Revdms. Padres Euzébio Nogueira Penido, Domingos Ferreira Martins e José Marinho; o primeiro digno vigário de Itatiaiuçu, o segundo de Mateus Leme e terceiro do externato municipal da cidade do Pará.
Estes preclaros sacerdotes vieram acolitar o nosso digno e estimável vigário padre Antônio Maximiano de Campos durante os festejos da Semana Santa, e que depois de uma curta demora entre nós, regressaram a suas residências, deixando gravados em nossos corações os mais gratos sentimentos de simpatia que angariaram de todos quantos tiveram a ventura de tratar de perto com tão ilustres sacerdotes. Retiraram-se deixando-nos a grata reminiscência dos dias que com eles tivermos a felicidade de passar.
Estiveram deslumbrantes os festejos da Semana Santa nesta localidade. Às 7 horas da noite de quarta-feira de trevas, depois do sermão do pretório em que o Revdm. Vigário Antônio Maximiano de Campos fez mais uma vez ouvir a sua eloquentíssima palavra em uma ligeira e lindíssima alocação análoga ao acto. Saia da Igreja dos Passos a linda procissão do Senhor dos Passos que seguiu na maior ordem possível até ao encontro, onde o ilustrado e Revedm. Padre Domingos Ferreira Martins, do alto da tribuna sagrada derramou em lindíssimas palavras comoventes e cheias de fé o seu eloquente sermão, que foi geralmente apreciado.
O Revdm. Padre Martins mostrou a sua muita proficiência e o seu vasto conhecimento de história santa, mostrando diversos pontos e fazendo comparações em uma linguagem sã e cheia de virtudes.
A procissão da Santíssima Virgem que vinha ao encontro, estava sumptuosíssima — duas alas em que aproximadamente se encontravam cento e oitenta virgens, todas na melhor ordem seguiram a imagem que parecia contemplá-las e à sua candidez.
Seguia-se a procissão e ao entrar na matriz orou o digno e Revdm. Padre José Marinho, honra de sua classe, em um brilhante e sublime discurso, burilado pelo seu muito saber; narrou a vida de Cristo fazendo comparações que pareciam saídas dos lábios do Divino Mestre.
Quinta-feira, no mesmo horário do dia anterior, saía da matriz a procissão de Dores, essa tocante e bem ornamentada. Era calculado superior a seis mil o número dos devotos, filhos do cristianismo que prestavam justa e respeitada homenagem à Santíssima Virgem. A imagem era conduzida por quatro virgens e estava colocada em um rico e bem ornado andor. Percorreu as ruas de seu trajeto e chegada que foi à matriz.
Usou da palavra, o nobre orador sacro o Revdm. Padre José Marinho que não menos que no dia antecedente mereceu os aplausos dos ouvintes.
Às 7 horas da noite de sexta-feira da paixão assomou à tribuna sagrada o lustrado Revdm. Sr. Padre Domingos Martins. As últimas palavras caídas dos lábios do Redentor ao gênero humano, foram as primeiras d’aquele preclaro sacerdote — Consumatum est; foi esse o tema do Revdm. Padre Martins. E depois, conforme o seu discurso ia ordenando assim, e foram os apóstolos procedendo a tão linda e solene, quão tocante e sublime cerimonia do descimento da Cruz, àquele que exalou o último suspiro almejando a nossa salvação.
O Revdm. Padre Martins coordenou uma série de pensamentos tão tristes e em palavras tão repassadas de dor que os ouvintes derramaram copiosas lágrimas. Dalí seguiu-se a procissão cuja numerosidade e aglomeração de devotos era incalculável.
Todas as procissões foram feitas com a maior pompa e respeito possível e foram a acompanhados pelo Revdm. Padre Euzébio Nogueira Penido.
Sábado de aleluia houve missa cantada pelo Revdm. Padre Nogueira Penido acolitado pelos digníssimos padre Antônio Maximiano de Campos e José Marinho. Meu voto de louvor, pois, à comissão encarregada dos festejos, que forma verdadeiramente dignos de encômios.

Correspondente do Jornal Gazeta de Oliveira, 14/04/1893.



 FONTE:
GAZETA DE OLIVEIRA. ANO XII. Nº 554, DOMINGO 1 DE MAIO DE 1898, p.2.

PESQUISA: Professor Luiz Mascarenhas, Charles Aquino

ORGANIZAÇÃO:  Charles Aquino 

ACERVO FOTOGRÁFICO: IHP - Instituto Histórico de Pitangui / Arquivo judiciário

FOTOGRAFIA: Padre Antônio Maximiano de Campos / Itaúna/MG

quarta-feira, abril 12, 2017

ITAÚNA: AULA DE FRANCÊS



O professor Geraldo Santos meu professor de francês no curso ginasial. A língua de Victor Hugo, Moliere, Emile Zola, Balzac e outros clássicos era ensinada de imediato, assim que chegávamos ao ginásio. O inglês, que me perdoem os francófilos, sem dúvida a língua mais rica entre todas, só chegava para os ginasianos na segunda série.
O professor era paulista. De Ribeirão Preto. Contava maravilhas de sua terra e ninguém ousava contesta-lo. São Paulo era outro mundo. Lembro-me que tecia elogios inflamados a um fruto de nome tamarindo. Muitos anos depois fui apresentado a tal iguaria. Minha mulher nasceu em Uberaba e passou a maior parte de sua infância em São José do Rio Preto. Vizinha de Ribeirão. Ela também dizia adorar a tal fruta. Confesso: no meu sentir, uma bela porcaria. Azedo e com pouco proveito. Fazer o que.
Tirando a empáfia paulista, o professor Geraldo era boa gente. Nunca soube porque razão deu com os costados em Itaúna. Fincou raízes, casou-se com D. Nívea Santiago, teve filhos e creio, também netos. Era bom professor. Severo, gozador e às vezes “cáustico”. Nos dias de hoje, de tempos politicamente corretos, certamente seria processado por assédio moral. Outros tempos e outros costumes.
Do pouco que ainda sei de francês, devo a ele. Serviu até (e como) nos meus tempos de hotelaria. Dava para me virar muito bem. Os professores do meu tempo sempre tinham uma forma de atropelar os maus alunos e mesmo os " tirados " a sabichões com frases que davam a entender uma coisa e ao serem traduzidas, levavam a outro significado. Umas das preferidas de nosso saudoso professor era a seguinte:

"Je n'importe que le mulle manque, je vais vous rosetter";

Tradução do aluno: eu não me importo que a mula manque. Eu quero é rosetar!!!

Tradução correta: não me importo que faltem os mariscos, eu que e vos condecorar!!!


* Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Se houver alguma incorreção no francês, as minhas desculpas. Já se passaram sessenta e dois anos.
 "Causo" enviado especialmente para o blog Itaúna Décadas em 12/04/2017.

Acervo Fotográfico: Shorpy