quinta-feira, junho 29, 2017

PADRE CAUPER: MISSIONÁRIO ESPIRITANO EM ITAÚNA


A tragetória do missionário amazonense do município de Tefé, o Espiritanto Revd. Pe. Cáuper, é no mínimo fascinante e gloriosa! Após sair da exuberante Amazônia, percorreu  por plagas lusitanas, passando pelas Gerais e fincando suas raízes na cidade maravilhosa, que o recebeu de braços abertos — o Rio de Janeiro.   

O INÍCIO
Em uma viagem pela América Latina, no ano de 1893, após visitar um colégio que os Espiritanos haviam inaugurado no ano de 1891 em Lima (Perú), o visitador das obras espiritanas, Pe. Xavier Libermann em trânsito pelo Brasil, passou pela cidade do Rio de Janeiro e encontrou com o recém nomeado primeiro Bispo de Manaus, D. José Lourenço da Costa Aguiar, o qual, demonstrou interesse e necessidade em trazer missionários para a diocese daquele município brasileiro.
Este aproveitou a oportunidade para falar das grandes necessidades da nova diocese, pediu a ajuda da Congregação e convidou o Pe. Xavier para a sua tomada de posse em Manaus. Então, o Pe. Xavier teve oportunidade de conhecer o cónego Dupuy, sacerdote secular francês, que era vigário da paróquia de Sta. Teresa em Tefé, que influenciará na vinda dos Espiritanos para Tefé. A cidade de Manaus tinha apenas 2 padres para 50 000 habitantes, e no interior havia só 5 ou 6 padres. (ESPIRITANA, 2004, p.8)

 Chegando em Paris, o Pe. Xavier levou o pedido à direção da Congregação, “defendendo o envio dos Espiritanos aos índios da Amazônia” (ESPIRITANA, 2004, p.8).
No ano de 1896, o Bispo José Lourenço segue para Europa para pedir apoio ao Conselho Geral e reforçar o pedido do Espiritano Padre Xavier. O desideratum foi alcançado e no dia 13 de abril de 1897 em Lisboa, os missionários, padre Parissier e padre Friederich, desembarcaram em Manaus e os outros, padre Xavier Libermann e o irmão Donaciano seguiram viagem até o município de Tefé do estado do Amazonas.  Instalados no local e trabalhando muito, os Espiritanos construíram a “Escola Agrícola e Industrial de Bocca de Tefé”, contendo internato, carpintaria, curtume, torno mecânico, fábrica de chocolate, de vinho, caju, entre outros. (ESPIRITANA, 2002, p.56)   

MISSIONÁRIO CÁUPER
No ano de 1913, dava início a construção do Seminário de São José, com destino a formação de padres. Após a conclusão do seminário em 1921 e com a mesma finalidade de trabalho e formação, criou-se também um internato no mesmo local. Nascido no município de Tefé do estado do Amazonas, no dia 6 de março de 1919, Manuel de Lima Cáuper, foi um dos primeiros a passar pelo seminário (ESPIRITANA, 2002, p.57).
Na década de 30, o jovem missionário Cáuper seguiu para Portugal com objetivo de estudar na cidade de Braga, realizando o seu noviciado no ano de 1942. Os votos perpétuos e ordenação sacerdotal, foram recebidos no Brasil em outubro de 1947 na Catedral de Santa Tereza, em Tefé. Homem simples e usando sua batina somente nas horas de cerimônia, o Padre Manuel de Lima Cáuper, foi missionário por dois anos no alto dos rios amazonenses.


ITAÚNA
Em Minas Gerais, passou pela cidade de Curvelo, chegando no início da década de 50 à Itaúna, seu trabalho era ensinar em ginásios e seminários das congregações.  O estabelecimento que trabalhou no município itaunense, denominava-se, Ginásio Sant’Ana, hoje Colégio Santana, cujo local era administrado pelos padres missionários da Congregação do Espírito Santo (Tombo II, p.20,26).
O provedor responsável, era o Pe. Pedro Schoonakker auxiliados pelo missionário Pe. Cáuper e os padres holandeses. Em 1954, era iniciado os trabalhos do Seminário denominado “Menor de Nossa Senhora de Fátima”, com um número de treze alunos matriculados (Tombo II, p.28). O reitor responsável, foi o Revdo. Padre Adrianus Petrus Turkemburg e mais dois padres integrando os serviços — Pe. Martinho Cools e Pe.Luiz Turkenburg. No ano de 1955, no dia 9 de março a cidade recebeu a visita do Superior Geral dos Padres do Espírito Santo, o Revdo. Padre Francisco Griffin (Tombo II, p.42).
(clicar na imagem para melhor visualização)



CONGRESSO VICENTINO DIOCESANO: DIVINÓPOLIS & LUZ

De acordo com o senhor Bispo de Luz, Dom Belchior da Silva Netto, o Congresso Vicentino foi feito com o consenso da duas Dioceses. Itaúna se preparou dignamente para este certame de caridade e de união. Foram organizadas as diversas comissões (Tombo II, p. 61,62):

Central
Dom Cristiano de Araújo Pena, Bispo Diocesano, Bispo Divinópolis
Central
Dom Belchior Joaquim da Silva Netto, Bispo Diocesano de Luz
Organizadora
Pe. Antônio Wiemers, vigário de Santanense, Itaúna
Organizadora
Pe. Martinho Cools, vigário de vila Padre Eustáquio, Itaúna
Organizadora
Antônio Fonseca de Faria, presidente Conselho Diocesano, Itaúna
Organizadora
José Augusto de Carvalho, presidente Conselho Particular, Itaúna
Finanças
Dr. Célio Soares de Oliveira, Prefeito Municipal, Itaúna
Hospedagem
Dr.Guaracy de Castro Nogueira, Gerente da Cia. Itaunense, Iaúna
Propaganda
Dr. Milton de Oliveira Penido, Itaúna
Secretário
Dr. Lauro Antunes de Morais, Itaúna
Arte
Pe. Manoel de Lima Cáuper, Itaúna
Arte
Dona Wanda Nogueira Corradi, Itaúna
Ornamentação
Murilo Santos Guimarães, Itaúna
Ornamentação
Dona Artumira de oliveira, Itaúna
Recepção
Antônio Henrique da Fonseca, Itaúna
Recepção
Dr. Ivan Perillo, Itaúna


         BANDEIRAS: Foram confeccionadas mais de trezentas bandeiras de Itaúna, que foram colocadas na frente das casas.
ESCUDO DO CONGRESSO: No centro deste escudo um coração dentro deste uma lâmpada com uma chama, simbolizando a missão do Vicentino — a caridade ardente. Em cima do escudo — 2º Congresso Vicentino – Itaúna Julho 1962. Em baixo — “Deus Charitas est”. Na frente de todos as casas e nos postes da praça e ruas principais foi colocado o escudo.
DISTINTIVO DO CONGRESSO: Foi o escudo impresso e cada congressista trazia em seu paletó. A confecção foi dádiva do Banco Minas Gerais S.A.
PROGRAMA DO CONGRESSO: Foi uma obra artística. Na capa uma vista da praça com a matriz de Itaúna em cor, contendo os seguintes dizeres: 2º Congresso Vicentino Diocesano de Divinópolis e de Luz — “Unidos na Caridade de Cristo” De 28 de Junho a 1º de Julho de 1962. Itaúna — Minas Gerais.


FRUTOS MISSIONÁRIOS
Pe. Adriano Turkemburg foi bastante influente na vida de um garoto itaunene — Mário Clemente Neto, nascido no ano de 1940, em uma comunidade rural denominada, Capão Escuro, que chegou a pertencer a Itaúna, após o ano de 1948 passou para Carmo do Cajuru. Sendo o 15º filho de uma numerosa família de 20 irmãos, Mário não hesitou quando recebeu o convite do padre missionário para servir a Deus. Diante da resposta, o garoto que acabar de se formar no Ginásio Sant’Ana, iniciava uma grande jornada. Passando pelo seminário de Mariana, Teresópolis, no Rio e chegando até Roma, onde estudo teologia e várias línguas, além do latim.

ORDENAÇÃO SARCEDOTAL
Itaúna assistiu com grande alegria a e emoção a ordenação de um de seus filhos: Mário Clemente Neto, pertencente à Congregação dos padres do espírito Santo, que dirige o Ginásio Sant’Ana, no dia 14 de agosto às 10 horas na matriz Sant’Ana. A igreja foi ricamente ornamentada. O oficiante foi o Bispo Diocesano Dom Cristiano Pena, acompanhado de um grande número de sacerdotes, regulares do Espírito Santo e Franciscanos, bem como os seminaristas destas mesmas entidades (Tombo II, p. 80).


PRIMEIRA MISSA
Dia 15 de agosto, festa da Assunção de Nossa Senhora; o Pe. Mário Clemente Neto celebrou a sua 1º missa, foi concelebrada com mais quatro padres, entre os quais, o vigário e o superior dos padres do espírito Santo. O côro foi dos seminaristas dirigido pelo Pe. Geraldo. A pregador foi o pe. Manoel de Lima Cáuper,  sendo para todos, momentos de grande emoção e piedade (Tombo II, p.80).
Dom Mário Clemente Neto, CSSp até hoje exerce um grande trabalho no Amazonas, no município de Tefé. Escreveu um livro “Vim para Servir” – Cartas de Um Missonário. 

Em sua passagem por Itaúna, Padre Cáuper realizou grandes trabalhos missionários e culturais. Orador pujante de grande eloquência, também nas festivas datas cívicas – como nos vistosos desfiles de 7 de setembro- estava sempre à frente do microfone, a inflamar os jovens alunos para o amor à pátria!  Sendo músico, dotado de grande inspiração e amor por nossa terra barranqueira de Sant’anna, compôs um hino em homenagem à cidade: “Avante Itaúna” e outro em louvor às bodas de prata sacerdotais do então pároco de Sant’anna: “Hino ao Pe. José Netto” (no ano de 1962). Outro presente para a comunidade itaunense, seria o hino que compôs para os trabalhadores:

HINO OFICIAL DA COMPANHIA INDUSTRIAL ITAUNENSE
Letra & Música: Revmo. Pe. Manuel de Lima Cáuper

Ao primeiro clarão da alvorada,
Vibra ao longe a sirene de alerta!
Operários, à fina sagrada! ...
Que o trabalho enobrece e liberta.

CÔRO:
Avante operários da Itaunense ...
Nós somos a voz do progresso a marchar!
Nós somos a força indomável que vence
Cumprindo o dever: Trabalhar! Trabalhar!

Capital e trabalho marchando
Bem unidos em prol do amanhã.
São as forças da paz no comando
Das vitórias da ordem cristã!

Operários da Itaunense,
Eia, pois: — Trabalhar! Produzir!
A riqueza que a toso pertence
Vem trazer-nos ditoso porvir.

Dando as mãos, no valor fatigante,
À conquista do mesmo ideal,
Operários, patrões: — Sempre avante!
Pela nossa vitória vinal.

Operários, cristãos, brasileiros,
Demos graças, num preito de fé.
Ao patrono comum dos obreiros,
Nosso guia fiel São José.

Ao fulgor deste cinquentenário,
Celebremos a glória, o louvor
Desse nobre varão lengendário
Nosso grande e imortal fundador.

Foi aproximadamente uma década de dedicação, trabalho e amor, que Padre Cáuper realizou e deixou nos corações itauneses, cuja, missão rendeu bons frutos e seus ecos, ressoam nos corações das gerações que o conheceram até hoje.


PESQUISA:
Charles Aquino, graduando em História, 8º período, UEMG/Divinópolis/ MG.
Historiador Escritor Professor Luiz Mascarenhas, Bacharel em Direito / Licenciado em História pela Universidade de Itaúna/MG.

ORGANIZAÇÃO: Charles Aquino

REVISÃO: Prof. Luiz Mascarenhas

REFERÊNCIAS:

LIVRO DO TOMBO II: Paróquia de Sant’Anna de Itaúna.

Missão Espiritana: Revista das Circunscrições Espiritanas Lusófonas. Província Portuguesa da Congregação do Espírito Santo, junho 2002 vol 1, e 2004 vol 5, p.8,9,56,57.

Diocese de Divinópolis: Biografia Mário Clemente Neto. Disponível em:  https://www.diocesedivinopolis.org.br/index.asp?c=padrao&modulo=conteudo&url=05585&ss=7

História Província Portuguesa: A restauração da província de 1910 aos nossos dias. Disponível em: https://view.publitas.com/cssp/historia-da-provincia-portuguesa/page/254-255  p.423.

Acervo: Foto Padre Cauper. Disponível em: http://artefvc.blogspot.com.br/

Homenagem ao Padre Missionário: Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=FXFfVzXIE6U&feature=channel_page

Acervo: Formandos 1957 no Colégio Santana/Itaúna: Marcos Lacél Camargos



MEMÓRIAS DO CINE REX PARTE IV

UMA NOITE MEMORÁVEL
*Urtigão

Como bem lembrou minha querida colega de ginásio, a escritora Maria Lúcia Mendes, vários cantores passaram pelo palco do Cine Rex.
Dentre eles, a apresentação de Nelson Gonçalves foi uma apoteose. Não só pela presença do eterno boêmio, mas por fatos que antecederam a sua chegada. Cantores daquela época tinham gogo. Nelson Gonçalves tinha um vozeirão inconfundível.
O cantor preferido dos " puteiros". Dez entre dez mulheres da chamada " vida fácil" eram fãs incondicionais do cantor de "Dolores Sierra". A canção narrava a desdita de uma prostituta de Barcelona. Imaginação fértil de Evaldo Gouveia e Jair Amorim.
Ao contrário dos cantores atuais, que demandam uma parafernália de equipamentos de som, iluminação e dançarinas que rebolam e fazem "play back", cantar naqueles tempos demandava somente competência, potência de voz e um violão para acompanhar. Era o suficiente.
O Cine Rex estava apinhado e era um dia de semana. As duas primeiras fileiras totalmente ocupadas pelas " moças da rua do Rosário".
Ver Nelson Gonçalves cantar era um privilégio. A sala de exibições, impregnada de perfume Royal Briar. Perfume enjoativo, agarrava no corpo da gente, denunciando para as mães zelosas o paradeiro do filho na noite anterior. Detalhes!!!
Na plateia, um dos mais entusiasmados era o Rameh. Fã inconteste do Nelson, aguardava irrequieto a noitada de cantoria. De repente, andando apressado, aparece o Ricardo, filho mais novo do Crispim do Rex. Confabula com o pai e do palco anunciam no microfone: Nelson Gonçalves estava atrasado. Chegaria com certeza, mas somente dali a uma hora. Como na letra de "Normalista", sucesso na voz do interprete aguardado, " o remédio é esperar".
Foi aí que houve a intervenção do Rameh. Subiu no palco, tomou o microfone e convocou a presença do "Jura Mi", filho do "Cabra", lustrador de móveis e boêmio inveterado. Fiel escudeiro de serenatas e seresteiros. Iriam cantar as músicas do Nelson e entreter a plateia até a chegada do astro. Dito e feito. As " moças da rua do Rosário" aplaudiram de pé. A dupla era muita querida na parte mais íngreme da rua Gonçalves da Guia. Sucesso absoluto. A espera foi uma festa. O astro chegou, cantou e encantou. Carregado em triunfo.
Junto com ele, Rameh Gonçalves Machado que quando cantava adotava o apelido de "Emerson Devagar".


Nelson Gonçalves

Duas notas:
Sem querer polemizar, informo ao Prof. Rabelo que Casablanca, filme estrelado por Ingrid Bergman e Humphrey Bogart, não foi exibido no Rex. Foi projetado em Itaúna, em 1956, no Cine Sant'Ana. Assisti na época, fazendo companhia a minha mãe e a D. Marta de Oliveira Guimarães, diretora do Grupo Augusto Gonçalves.

Nunca soube o nome do Jura mi, que depois passou a ser conhecido apenas por Jura. A origem do apelido veio de uma canção que fez sucesso na voz de Frei Jose de Guadalupe Mojica, que tinha o seguinte refrão: "jura mi, por un beso enamorado......"O Jura adorava. (Cultura inútil)


*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. História enviada especialmente para o blog Itaúna Décadas em 29/06/2017


Acervo: Instituto Cultural Maria Castro Nogueira.
Acervo Lilian Gonçalves
Jornal Folha do Oeste - Itaúna


quarta-feira, junho 28, 2017

MEMÓRIAS DO CINE REX PARTE III

Crispim Alves Magalhães  e esposa D. Lurdinha

*Luiz Otávio RABELO

 Vamos dar sequência do nosso cinema, ou melhor, às nossas casas exibidoras das produções da 7ª arte, que iniciamos com o CINE REX, por ser o mais antigo. Nada é mais justo que relembrarmos, ao longo do tempo, para que o inesquecível CINE REX desse seu recado, quando ao lazer de primeira qualidade e ao enriquecimento cultural da população barranqueira. Grande e abnegado foi o elenco de pessoas, que deu o melhor de si, para que o cinema de Itaúna desempenhasse seu brilhante papel, no campo do lazer e da arte, em benefício dos itaunenses. Nosso objetivo é esboçar um apanhado do pessoal envolvido, na realização dos eventos desse entretenimento da época. Se porventura alguém não constar, no rol dos colaboradores, foi devido a um lapso de memória ou falta de informações seguras. Os nomes, com suas respectivas atribuições, serão objetos de uma menção ulterior. Senão vejamos:
- Crispim Alves Magalhães – Proprietário e bilheteiro
- D. Lurdinha, mulher do Crispim – Proprietária e bilheteira
- Dr. Roberto, genro do Crispim e de D. Lurdinha – Bilheteiro eventual
- Ledo Magalhães – Administração e contatos com as empresas cinematográficas
- Antônio – Encarregado de tabuletas (propagandas de filmes)
- Operadores (Projeção de filmes): Josafá, José Moreira, Pershing Romão, José Dentão, José Nicomedes , Hely Santos, Mário Lúcio da Várzea, Oldair  Padilha, Mário Lúcio Moreira, José do Cerrado , Cueca, Célio da D. Biscota.
- Baleiros, Faxineiros, carregadores de tabuletas, carregadores de filmes da estação R.M.V. :
Anís Leão, Mário Queiroz, Ré , Ricardo do Crispim, José Pereira, Boá do Candico, José Caçarola, Sebastião do Cerrado, Braz da D. Filomena, Duquinha, Fernando Lima , Luiz Tatu. Etc.
- Assistentes técnicos:
Antônio Viana e Wagner Marques (Quita)
- Porteiros:
D. Lurdinha (eventualmente), José Caveirinha, Armando Prado, Dr. Roberto (eventualmente)
- Prefixo e sufixo (toque musicais de princípio e final do lançamento do filme) ...

Alguns filmes inesquecíveis, exibidos no CINE REX na “ Noite do Passado: E o vento Levou, Sansão e Dalila, Viva Zapata, Casa Blanca. 

Nota final
  O cinema é um dos fatores de sociabilidade sem paralelo, na área da relação humana. Todos se acotovelam, todos se reúnem sob o mesmo teto, na busca do entretenimento comum, para seu descanso, diversão e relax: pobres e ricos, sem distinção de raça ou cor. Cultos e incultos formam uma só família, sentados, lado a lado.  ... “

Acervo: Dra Ana Maria Magalhães


MEMÓRIAS DO CINE REX PARTE II


*Maria Lúcia MENDES

Demoliram o Cine Rex. Seguindo a lei natural de todas as coisas, o nosso mais antigo cinema chega ao fim. Em seu lugar, o progresso elevou um edifício majestoso, modificando assim a paisagem da praça da matriz. Instalado no antigo teatro Mário Matos, cujas temporadas marcaram época e nossa terra, o Cine Rex tem seu lugar reservado na lembrança de cada um. Ponto de encontro da juventude que ali se reunia, olhando os cartazes, ou discutindo sobre este ou aquele filme, o velho cinema foi cúmplice de muitos sonhos e romances.
Filmes notáveis, tendo como protagonistas artistas consagrados, levaram multidões ao cinema. E as filas da bilheteria se alongavam, todas na expectativa de conseguirem um ingresso. À tardinha, logo, que as luzes da praça se acendiam, podia-se ouvir uma voz familiar através do alto falante: Senhoras e senhores, boa noite. O Cine Rex anuncia para hoje...
E vinha a seguir o prefixo musical: “Não levo outra vida, pescando no rio jereré... Tem peixe bom, tem siri-patola, que dá com o pé... Se compro na feira feijão, rapadura, pra trabaía... eu gosto do rancho e o homem não deve se amofiná... Quando no terreiro, faz noite de luar...”
Em pouco tempo a casa estava repleta e um vozerio alegre dominava o recinto. Muitos, por questão de hábito, assentavam-se sempre nos mesmos lugares, não faltando os pontos estratégicos preferidos por casais de namorados. Às sete da noite em ponto, tinha início a primeira sessão.
O vozeiro cedia lugar ao silêncio entrecortado apenas por um ou outro assobio que vinha sempre da geral. Nisto, surgia na tela o leão da Metro ou a estátua, símbolo da Columbia Pictures. Ai, cada um se acomodava melhor, fazendo ranger as poltronas gastas.
Todas as atenções se concentravam na tela. E mergulhávamos todos num mundo diferente de sensações estranhas onde o ódio, o amor, o tédio, a vingança se mesclavam em realidade e fantasia. Nenhuma outra arte, até hoje, exerceu tanto fascínio entre as pessoas quanto o cinema.
Como esquecer o gênio Charles Chaplin no adorável papel de vagabundo? E o mundo inteiro aplaudiu o indiscutível talento de Carlitos. Os musicais com Fred Astaire, o fabuloso “Quo Vadis?” e sua longa projeção, a história triste de Sansão e Dalila...
E o desfile continuava. Na passarela dos sonhos, astros e estelas, em pleno apogeu, eram os ídolos de nossa juventude. Fascinava-nos a beleza de Elizabeth Taylor, a exuberância de Marilyn Monroe, a sensualidade de Brigitte Bardot, o encanto dos galãs como Jeff Chandler, Tony Curtis e Marlon Brando.
Desejando proporcionar aos itaunenses maiores atrações, o Cine rex teve suas noites de glória. Nomes famosos passaram por aquele palco: Vicente Celestino, Ângela Maria, Nelson Gonçalves e o maior cômico que o cinema brasileiro conheceu – Oscarito.
A dupla Oscarito-Grande Otelo fazia vibrar o público, tornando as chanchadas da Atlântida um sucesso à parte. Era a fase de glória do cinema nacional que fez de seus artistas verdadeiros ídolos populares. Quantos momentos felizes nos proporcionou aquela casa de espetáculos!
Na sus simplicidade, sem o conforto dos cinemas das metrópoles, conheceu espectadores os mais diversos. Os adeptos do Zorro e de Tarzã na matinê das dez. Os que não perdiam da os faroestes e vibravam com a valentia de John Wayne e Alan Ladd. Nas cenas de bang-bang, quando o bandido vencia o mocinho, os ocupantes da geral gritavam e batiam os pés em tremenda algazarra. E para dissipar tristezas, nada como as divertidas comédias com Os Três Patetas, o Gordo e o Magro... Demoliram o Cine Rex. Afinal, tudo passa. 

* Escritora itaunense por herança e registro.

Fonte: MACEDO, Maria Lúcia mendes Vera. Pedra de Cetim, BH, Gráfica e Ed Cultura, 2001, p.45,46.


MEMÓRIAS DO CINE REX PARTE I


*Urtigão

O Cine Rex, plantado de frente para a praça da matriz de Itaúna, era uma instituição da cidade. Deixara de ser um local de entretenimento e lazer e fora promovido a referência geográfica pelo Pe. José Ferreira Netto. Explico: na quarta-feira Santa, realizava-se a Procissão do Encontro. Do alto-falante o vigário anunciava o trajeto do cortejo: " os homens pela rua Antônio de Matos e as mulheres pela porta do Crispim do Rex. O encontro acontecerá na frente da matriz.". Não tinha erro. O cortejo das mulheres carregando o andor da Virgem e o dos homens o andor de Cristo. Anos e anos a mesma coisa. Sempre com o Cine Rex e seu proprietário no contexto.
O vetusto cinema nunca chegou a ser mudado em sua totalidade. Da velha sala de exibições, que tinha geral, isto é uma galeria acima da plateia, lembro-me bem. Lugar preferido da molecada nas matinês de domingo de manhã. Filmes de Rocky Lane, o cowboy, e seu cavalo Blackjack. Quando ele aparecia na tela, no encalço dos mascarados, a meninada fazia um barulho ensurdecedor, batendo os pés no piso de assoalho. Com a reforma, demoliram o puleiro e os ingressos mais baratos. Uma pena. Demolição por questões de segurança.
Fizeram uma nova sala, em um só nível. Deixaram a velha fachada e a entrada. Permaneceu e acredito que nunca fizeram algo novo.
O Rex e seu dono, o Crispim, eram parte importante de Itaúna. Muito mais do que o velho Cine Sant'Ana, na rua Silva Jardim e o Bagdá, que nasceu com o nome de Cine Popular. Nunca tiveram o apelo e a tradição do Rex.
Era nele que exibiam os filmes de Mazzaropi, caipira bonachão, recorde absoluto de bilheteria. Filas quilométricas, a dobrar a esquina da rua Capitão Vicente. Foi lá também a exibição de "Quo Vadis", de Spartatacus, de Ben Hur, de os Dez Mandamentos e outras célebres películas de Cecil B.de Mille e outros menos cotados.
Também no Rex, assistimos O maior espetáculo da Terra, história do mais famoso circo do mundo, que infelizmente deixou de existir em maio de 2017, por perseguição dos " politicamente corretos". No velho cinema, assisti faroestes maravilhosos, com John Waine, Gary Cooper, Alan Ladd e o espetacular "Sete homens e um destino", com Yul Bryner a frente do elenco.
O Rex exibiu para a rapaziada boquiaberta, o filme Europa de Noite, primeira película a mostrar "streep teases" , filmados no lendário Crazy Horse Saloon de Paris. Excelentes filmes de suspense, da lavra de Alfred Hitchok, incluindo Testemunha de Acusação, um dos clássicos do gênero.
Ir ao cinema, sobretudo aos sábados e domingos era quase uma obrigação. Costume de solteiros e casados, de jovens e casais de namorados, de moças namoradeiras e solteirões convictos. Os velhos cinemas de rua escreveram a história, modificaram os costumes e a moda. Infelizmente, tudo isso se perdeu na passagem inexorável do tempo.

 Uma historinha: O Rex exibira com enorme sucesso o filma Doutor Jivago, com Omar Shariff como galã. Logo em seguida, afixou um cartaz de Django - o pistoleiro. Conversa entreouvida entre dois capiaus. " Agora deram para fazer filmes de dotor. Semana passada foi o dotor Jivago e agora jávem o dotor Jango”.

*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. História enviada especialmente para o blog Itaúna Décadas em 28/06/2017

Acervo: Prof. Marco Elísio Chaves Coutinho -  Reunião Integralista década de 30. Objetivo desta foto é mostrar parte interna do cinema. Cine Rex foi palco de vários acontecimentos: Culturais, religiosos e políticos.

terça-feira, junho 27, 2017

ITAÚNA: PATACA, CAMELÔ E O OVO



Era conhecido por Pataca. Nunca soube o seu nome verdadeiro e tampouco lembro-me dele depois daqueles tempos. Era meio "apatetado", lerdo e prestava-se a pequenos mandados que não requeressem inteligência e ligeireza. Pressa com ele era mercadoria escassa.
Nos idos da década de cinquenta do século passado, havia em Itaúna um costume singular. Por ocasião dos bailes no Automóvel Clube, não eram aceitas a reserva de mesa com antecedência. Não existia telefone nas casas e tampouco no comércio. Somente o Posto Telefônico para interurbanos, do lado do Armazém do Zé Rosa. Uma ligação para Belo Horizonte demorava um dia inteiro. Isso se o cristão tivesse sorte.
No Clube a sistemática era a seguinte: na véspera do baile, normalmente em uma sexta-feira, a Diretoria abria para os sócios a escolha de mesas. Quem chegasse na frente, escolhia as melhores. As de pista, naturalmente. Uma boa chance de nós, adolescentes e pré-adolescentes ganharmos uns trocados. Dormíamos na fila, pagos pelos interessados nas mesas. Garantíamos o lugar na fila e em troca, éramos pagos.
Pataca era um habitual das filas. A vigília, que costumava acontecer na noite de quinta-feira, para ele começava na quarta. Era sempre o primeiro. Bem mais velho do que a maioria, já quase homem feito, vivia desses expedientes. Moleirão e preguiçoso até no falar. Era uma boa alma.
De vez em quando aparecia um camelô na cidade. Era itinerante e a sua estada era aguardada. A polícia não o perseguia. Fazia parte da rotina, de tempos em tempos.
Tinha uma jiboia acondicionada numa mala. Dona Catarina era o nome do réptil. Segundo ele, cobra de muitos dotes. Pulava, sapateava e fazia piruetas na ponta da cauda. Como companheiro, Dona Catarina tinha um teju. Um lagarto preguiçoso e bem taludo. De nome, atendia por Dom Pascoal de Bragança. Segundo seu dono, atravessara o Canal da Mancha a nado, com quinhentos mil reis de moedas no bolso da cueca. Um fenômeno.
O camelô era especializado em vender óleo de peixe elétrico, remédio milagroso que curava de espinhela caída a quebranto, passando por mau olhado e dores de cotovelo. Inigualável.
Vendia também correntes de pescoço, próprias para medalhas, confeccionadas com um metal de nome " plaquet americano", mais forte do que o aço, da cor do ouro e imune a corrosão. Para provar tal virtude, botava a correntinha numa colher de sopa, derramava algo que dizia ser ácido. A mistura fervia, a colher enegrecia e a corrente, depois de lavada se mostrava impávida. Brilhante como nova.
Fazia mágicas e prestidigitação. Rápido com os dedos, manuseava cartas de um baralho seboso e fazia adivinhações. Um sucesso de público, que comprava sua berberagem e suas correntinhas de alumínio colorido de amarelo.
Certa feita, resolveu inovar. Dizia ele que a renovação era a alma do negócio e a propaganda a alavanca da civilização. Resolvera fazer um truque diferente e para tanto contratara o Pataca para seu "partner".
Fora do ambiente, combinara com o indigitado. Dera a ele um belo ovo de galinha caipira e fizera a seguinte combinação: Pataca deveria ficar no meio da turma que estivesse assistindo o palavreado, com o ovo no bolso.
O aprendiz de Silvio Santos, colocaria outro ovo num saco de flanela, devidamente mostrado e manuseado pela plateia e após muita falação, faria o ovo desaparecer do saco. Mostraria o saco para o povo em volta e diria que o ovo iria aparecer no bolso do Pataca. Tudo bem combinado e apalavrado, seria um sucesso.
E dá-lhe cantilena, cobra tirada da mala e passada nas mãos dos moleques mais corajosos, lagarto com preguiça, pedindo a Deus somente sombra e muitos insetos para comer e a venda de bugigangas a todo vapor.
Chegou a hora do "gran finale". Pataca postado no meio da turba, a assuntar tudo. Ovo no saco, gestos rápidos de dedos e o ovo sumido. Saco revirado ao avesso e nada do ovo. O camelô, em triunfo, grita bem alto: "O ovo sumido vai aparecer no bolso de um de vocês.
Aliás, vai aparecer no bolso do Pataca. Dito isso, pergunta bem alto: Pataca, cadê o ovo?
E o Pataca, lerdo e bonachão:"lá em casa não tinha nada pra armocar, eu armocei ele!!!!!
Se a polícia não interviesse, o camelô seria linchado!!!!

*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o blog Itaúna Décadas em 27/06/2017

Acervo: Shorpy


domingo, junho 25, 2017

ITAÚNA: RUA DO CASCALHO


*Maria Lúcia MENDES

Manhã, bem cedo, começa a labuta na rua do Cascalho. Das casinhas sem reboque, empilhadas morro a pique, as chaminés soltam uma fumaça cheirosa, sinal de que está pronto o café. E a lenha estala nos fogões, cozinhando o feijão do almoço.
Uma a uma, as janelas vão se abrindo. Surgem mulheres de lenço na cabeça, sacudindo colchas de retalhos coloridos e batendo os travesseiros para tirar a poeira. Logo depois, lá estarão elas à frente da casa empunhando enormes vassouras de coqueiros. Dá gosto vê-las alegres, varrendo o chão batido num trabalho de todas as manhãs. Vez em quando param e espicham conversa na lengalenga de sempre: Compadre, não te conto nada...
Quando o terreiro já está bem varrido, é a vez de aguar as plantas que, amontoadas aqui e ali, dão um toque de graça à rudeza das pedras. São latas de manjericão, malvinhas, plantas em pinicos, cravo-caboclo, queixo-caído, comigo-ninguém-pode e espadas-de-São Jorge.
Ao redor das casas, brotando dos alicerces, os pés de mulata-nasala vão colorindo a paisagem com suas florzinhas regateiras.
Uma velhinha espigada abre a porta da cozinha trazendo nas mãos uma cuia de milho: Tico, tico, tico! P’rrr!...
E bate na cuia chamando as aves que correm agitadas, bicando-lhe as chinelas e a saída de algodão. Depois, ela, pondo-se de cócoras, vai jogando punhadinhos de milho aqui e ali falando sozinha: este aqui é para o Natal, o carijó para o Ano Novo...
Enquanto isto, no quintal ao lado, as galinhas d’angola gritam encarapitadas no sabugueiro: Tô fraca! Tô fraca! Tô fraca!...
A dona da casa chega à porta da cozinha: Êta galinhada custosa!
E entra novamente comandando a filharada: Varra essa casa direito, Maria! Olhe a panela no fogo, Beré!
Lá no alto, num barraco pitando de azul, Aninha da Capela costura em sua máquina de mão. Ajeita os cabelos puxados num coquinho ralo e começa a cantoria: “Sete e sete são quatorze, com mais sete, vinte e um. Todo mundo tem amor, só eu não tenho nenhum”.
Um rapazinho magro, carregando às costas um enorme balaio vai subindo a rua devagarinho. Às vezes, para, descansa um pouco, e sua voz conhecida esparrama-se pela rua afora: Sooo... Vadinho! Pão de sal! Forrobodó! Ô de casa?! Ô de Casa?!
A freguesia acode: Ô de fora! E é um tal de mexe, remexe o fundo do balaio sob os protestos de sempre: Deram outro corte no pão!
Acostumado àquela cantilena, o padeiro sorri, põe o balaio às costas e segue seu caminho.
O sol começa a brilhar pelos telhados e quintais. A rua ganha movimento. É muita gente descendo com latas e rodilhas, rumo à torneira que serve aos moradores do Cascalho e que fica lá embaixo no começo da rua. Pelo caminho, ninguém despreza um dedo de prosa.
Oi, Zé Camilo! O remédio foi bom pra danar. Qual é o remédio? Não estou me lembrando não. E sem esperar resposta: Barbatimão, chapéu-de-couro, gravatá, mutamba, erva-cidreira, canelinha...
Esse tal de gravatá é um porrete pra tosse. E o velho cachimbando: Remédio das plantas é muito melhor. O povo é porque não sabe. A fileira das latas vai aumentando. E o vaivém prossegue animado.
Quem já encheu sua vasilha, sobe o morro com lata d’agua num equilíbrio que dá gosto.
Rua do Cascalho! A pureza e a simplicidade de sua gente, suas casinhas morro a pique, os pés de mulata-na-sala florindo nos alicerces. Eu também morei lá, sempre algumas horas por dia, quando ia catar umas pedras redondinhas para jogar nendes nas tardes calmas da infância. E. na roda-viva de hoje, ante os obstáculos da vida, relembro a fileira das latas, os moradores da rua e inconscientemente vou cantando: Nendes! Nendes! Um! Nendes! Nendes! Dois...
É a roda-viva que continua.   

* Escritora itaunense por herança e registro.

Fonte: MACEDO, Maria Lúcia mendes Vera. Pedra de Cetim, BH, Gráfica e Ed Cultura, 2001, p.26,27,28.