domingo, junho 04, 2017

ZÉ DA CAPIVARA


Prof. Luiz MASCARENHAS*

         Na vila todo mundo conhecia o Zé ou Zé da Capivara. Na verdade, seu nome de pia era José Salustiano Silva da Rocha. Mas...analfabeto que era, o Zé só assinava em cruz. Nunca frequentara a escola, pois nunca tivera tempo para isso; desde muito criança estava na lida, sempre correndo daqui para acolá, como menino de recados. Agora, estava na faixa dos seus quarenta e poucos anos e também não tinha qualquer documento. Bem como jamais teve sequer um par de botinas.
         Zé andava sempre quase maltrapilho, com uma calça de brim cáqui-como quase todos os homens comuns usavam - muito surrada, remendada e puída, que lhe dava pelo meio das panturrilhas e mal-arranjados suspensórios, que as prendiam, além da camisa de algodão, faltosa de diversos botões e um chapéu de palha desgastado de abas largas. Afora isso, possuía apenas mais duas trocas de andrajos e uma roupinha de missa, que aliás ganhara de dona Odete.
         Zé era daquelas figuras populares que todo mundo conhecia. Meio surdo, meio bobo ou muito esperto - dotado dessa esperteza singular aos matutos e caboclos- pois ninguém o passava pra trás ao se tratar dos tostões ou dos poucos mil réis que ajuntava trabalhando para quase todo mundo... Só andava às turras com o Cônego Teixeira Senna - o pomposo Diretor do Colégio da Imaculada - pois este sovina que era, sempre dava um jeito de colocar defeito nos seus préstimos, afim de pagar-lhe menos que o combinado.  
         Desde a morte da mãe, a Diquinha rezadeira, como a chamavam – uma conhecida benzedeira do lugar - Zé morava sozinho num casebre próximo ao riacho. Jamais soube quem era o pai e em sua inocência de matuto, nunca imaginou que seus irmãos lhe passaram a perna, pois – apesar de viverem em estado de grande pobreza - o pai lhe havia deixado alguma terra e alguns bens; porque na verdade, era filho bastardo de um conhecido boticário da vila. Zé, por ser analfabeto, andou assinando - com muita dificuldade-uma papelada no dia do falecimento de dona Diquinha, que lhe apresentaram como necessários para o sepultamento, mesmo sendo no Cemitério do Rosário, que tinha algumas valas destinadas aos pobres e indigentes.
         Quanto ao apelido, nem ele mesmo sabia ao certo o porquê. Sempre foi o Zé. Quando lhe chamavam e o mesmo não escutava, devido à baixa audição, logo gritavam: “ô Zé! Ô Zé da capivara!”....e assim foi vida afora. Mais um dos muitos “zés” espalhados e excluídos de tudo pelo nosso Brasil.
         No entanto, o Zé era, de uma certa forma, querido por todos, pois era uma pessoa de alma simples, muito prestativo, ingênuo e totalmente inofensivo. À noitinha, invariavelmente- após sua longa jornada de trabalho - encontrava-se assentado nos degraus da porta do bar do Gordo- o seu Giuseppe Grazianno - um calabrês muito falante, vermelhão e de estopim curto...mas “molto buone gente” como ele mesmo dizia. Ficava por ali, entre um gole de pinga e outro, a ouvir histórias e a dar informações sobre o povo da vila...quem chegou, quem partiu, quem recebeu carta e assim por diante, como uma espécie de noticiário local... E no fim acabava ganhando do seu Giuseppe um bom prato de polenta ou uma ciabatta saída  do forno com o delicioso molho bolonhesa que o italiano sabia fazer como ninguém.
         No cotidiano modorrento da vida, o Zé ainda tinha uma outra vocação e esta era como que camuflada; apesar de as moçoilas e rapazes o saberem muito bem. Zé era alcoviteiro. E dos melhores. Como atravessava a vila todos os dias, prá lá e prá cá, acabava transportando os famosos “bilhetinhos”, dados às escondidas, pelas frestas das janelas, no burburinho do chafariz, na penumbra da igreja e entre suas inúmeras encomendas e mandados.
         E foi numa dessas que se misturou à história de Odete e Paulo…No começo, bilhetinhos.... Depois pequenos mimos...até o famoso ramalhete, na noite do carnaval de 44...
        

*Bacharel em Direito / Licenciado em História pela UNIVERSIDADE DE ITAÚNA
Historiador/ Escritor/ 1º Secretário da Academia Itaunense de Letras/ Autor de “Crônicas Barranqueiras” e coautor de “Essências” e “Olhares Múltiplos”/ Diretor da E.E. Prof. Gilka Drumond de Faria.

Acervo: http://www.globocampinas.com.br/2014/10/caipira-com-fome



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