A Igreja Matriz de Sant’Ana de Itaúna e o Místico Galo de Lata
A Igreja Matriz de Sant’Ana, um dos marcos históricos e espirituais de Itaúna, sempre esteve envolta em tradições e crenças populares que atravessaram gerações. Entre essas histórias, uma das mais curiosas diz respeito ao galo de lata que adornava uma de suas torres, um elemento que, além de seu significado litúrgico, tornou-se símbolo de presságios para os moradores da cidade.
Segundo o historiador João Dornas Filho, o galo, movido pelo vento, girava conforme as correntes de ar. No entanto, um temor peculiar pairava sobre a comunidade: se a ave metálica apontasse seu bico na direção do cemitério, acreditava-se que grandes mortandades assolariam a cidade. Essa crença popular reforçava o misticismo em torno da igreja e despertava o respeito e até o receio dos habitantes, que observavam atentamente o movimento do galo, buscando nele sinais para o futuro.
A origem desse presságio pode estar ligada ao simbolismo do próprio galo nos ensinamentos cristãos. Na tradição católica, o galo é associado à vigilância, ao anúncio de novos tempos e, especialmente, ao episódio bíblico em que Pedro nega Cristo três vezes antes do cantar do galo. Em muitas igrejas pelo mundo, é comum encontrar cataventos em formato de galo no topo das torres, representando a necessidade de estar atento à fé e aos desígnios divinos. Em Itaúna, porém, essa simbologia se entrelaçou às superstições locais, adquirindo um tom profético e um papel quase oracular no imaginário popular.
A cidade, como tantas outras do interior mineiro, carregava consigo um forte senso de religiosidade, no qual o sagrado e o místico se misturavam ao cotidiano. Quando o galo de lata apontava para o cemitério, o temor se espalhava, e era comum que os moradores recorressem a orações, missas e procissões em busca de proteção divina. Nos tempos de epidemias, surtos de doenças e crises, esse presságio era lembrado com ainda mais força, reforçando a crença de que os sinais do céu indicavam os destinos da terra.
Com o passar dos anos, a velha Matriz de Sant’Ana passou por transformações, mas a lenda do galo de lata permaneceu na memória coletiva, sendo transmitida por aqueles que testemunharam a força desse imaginário em tempos passados. O relato de João Dornas Filho não apenas resgata essa fascinante história, mas também revela a forma como o povo de Itaúna interpretava os eventos da vida por meio de símbolos e tradições, conferindo à fé um papel central na compreensão do mundo e de seus mistérios.