sexta-feira, janeiro 27, 2017

Nova Matriz: Parte I

Itaúna, 29 de Abril 1934


NOVA MATRIZ: PARTE I

Um Apelo por Morfeu 

  Agora em que discute o local para o levantamento da Nova Matriz, itaunense, o rabiscador  destas linhas, atendendo a um natural impulso de sua consciência , e certo de que traduz o pensamento da maioria dos itaunenses, ousa , data vênia, fazer um apelo, destas colunas, à douta e digna comissão encarregada do seu soerguimento, e especialmente aos srs. Prefeito Artur Contagem Vilaça, Cel. João de Cerqueira Lima e Dr. Dario Gonçalves de Souza, para que a Nova Matriz seja erigida não no logar da velha , mas no logar do “Cemitério Velho” onde estão os alicerces da planejada Catedral e onde jazem os restos mortais dos nossos antepassados itaunenses, a quem devemos o mais profundo respeito e mais sincera veneração .
  Há neste apelo,  que é sincero , bom senso , critério e uma nobre intenção.
  O local do “Cemitério Velho” está magnificamente apropriado para a referida construção, não só pela sua área vastíssima e bela, não só pela sua altitude panorâmica, como também pela sua esplendida situação, mais afastada do bulício e da trepidação da cidade, mais propício à meditação e ao recolhimento.
  Afora isto, que somente, e sobejamente, recomenda o local, ali foi por longos anos a morada dos mortos, lugar de respeito próprio para um templo, e não para uma praça pública.
  Medite um pouco a douta comissão.
  É preciso que ali se construa a nova casa de Deus, porque de outra forma, isto é, não a construindo no referido lugar, aquele sagrado recanto, que nos merece o máximo de respeito, ficará ali eternamente esquecido, cheio de mato, servindo de despejo do povo e de esconderijo para os mal intencionados.
  De resto, deixando de construir a Nova Matriz na Praça João Pessoa, não prejudica este em nada, antes torna-a mais espaçosa e muitas vezes mais bela e mais atraente. Além disso, que é razão de sobra, evitam-se desgostos e amolações por ocasião dos corsos carnavalescos, nos dias de festa do Rei Momo.
Pode-se aproveitar o mesmo alicerce ou fazer outro em proporções menores, mas a certeza de que está fazendo um templo para muitas gerações.
  Assim sendo, é que ouso dirigir este apelo ao coração, ao bom senso e ao espírito esclarecido da douta e digna comissão encarregada do levantamento da Nova Matriz. 

Jornal de Itaúna - 29 de Abril, 1934
Diretor Redatorial : Viriato Fonseca


Diretor Gerente: João Batista de Almeida


Pesquisa : Charles Aquino
Local : Instituto Cultural Maria de Castro Nogueira - ICMC

segunda-feira, janeiro 23, 2017

DEMOLIÇÃO DA MATRIZ DE ITAÚNA




Com a permuta das capelas em 1853, sugerida pelos barboneos, frades capuchinhos italianos em missão, o 3º pároco, João Batista de Miranda realizou a troca. Quando a matriz de Sant’Ana foi transferida para a parte baixa da povoação e a capela do Rosário foi alçada à colina, esta antiga capela da parte baixa, passou por grandes transformações para sediar a matriz. Na verdade, a antiga capela do Rosário ficou servindo como sacristia da nova igreja; cuja ampliação gerou muitas disputas no arraial. (DORNAS, p.22)
 A ampliação da Matriz, se deu a partir do ano de 1854 pelo Pe. João Batista de Miranda que recebeu doações dos moradores do arraial, em sua maioria de ricos fazendeiros. “Acontece, porém, que cada um dos fazendeiros queria a porta principal voltada para o lado da sua fazenda e isso constituiu um impasse insolúvel na época, que fez paralisar por dois anos as obras já iniciadas” (DORNAS, p.22).  Nesse entrevero sobre para onde seria voltada a nova Matriz, o Pe. Miranda fez a proposta: de quem fosse a maior doação seria voltada para suas terras a porta principal.
Iniciada a “disputa santa”, as primeiras árvores abatidas para ampliação da igreja, vieram da fazenda do Alferes Antônio José de Siqueira, que mandou seus carretões puxarem aroeira para a nave. O Alferes Siqueira era fazendeiro e juiz de paz no arraial, possuidor de manias pitorescas.  Possuía vários cavalos, os quais, eram muito bem tratados, mais que a própria família. Aos domingos, saia de sua casa bem vestido usando um vistoso uniforme montado em um de seus cavalos que usava ferraduras de prata, aos galopes, subia até o morro do Rosário para assistir à missa. Quando havia música no local, pagava e convidava os músicos para irem até a sua fazenda e no caminho, jogava “mancheias de dinheiro” para as crianças que o acampavam. O Alferes Siqueira, era uma figura! Alto, com um grande bigode e sempre calçado com suas impecáveis botas; sua fama e riqueza lhe davam status de respeito por onde passava (DORNAS, p. 22,24,49,50).
Depois, apareceu Dona Maria Fernandes, da fazenda da Bagagem fornecendo a madeira para a torre e os Coelho Duarte deram a madeira que faltava, acompanhada de quinze escravos pedreiros e carpinteiros e mais duzentos mil réis em dinheiro, vencendo assim a disputa.  Os sinos e o relógio da torre foram adquiridos por subscrição popular, inciativa de João Antônio Fonseca. A ampliação da matriz custou a vida de João Júlio César Silvino – carpinteiro - tendo se precipitado ao chão, quando trabalhava nas obras de cobertura da igreja em 1857. No livro de óbitos nº1 consta o lançamento de seu sepultamento no interior da nova matriz, sendo assim o primeiro a ser nela enterrado. (DORNAS, 22,24).
Essa disputa, consistia em se querer que, a porta principal do templo, fosse voltada para uma das grandes fazendas (entendendo que assim, as “bênçãos divinas” seriam mais facilmente canalizadas para aquele local aonde a pessoa estivesse morando) envolvendo os notáveis fazendeiros da época: sargento-mor Nicolau Coelho Duarte, tenente-coronel Antônio Lopes Cançado, guarda-mor Antônio de Souza Moreira, tenente José Ribeiro de Azambuja, sargento-mor Manoel Gonçalves Cançado, os quais se reuniram para tratar do assunto. (DORNAS, p.24)
Bem próximo ao local, havia uma velha e frondosa paineira, quase centenária; assim se concluía pelo seu majestoso porte.  Por não ser árvore nativa, atestava a antiguidade do povoamento do arraial. Era costume os fazendeiros deixarem os seus cavalos sob a mesma, enquanto participavam de atividades religiosas na igreja. Esse entrevero sobre para onde seria voltada a nova matriz teve, inclusive, um fundo de rixas políticas entre os chimangos (apelido dos liberais) e os cascudos (alcunha dos conservadores).  Os primeiros diziam que, a sede dos cascudos seria a velha paineira, por não terem dinheiro e nem local para realizarem suas reuniões; enquanto que, os chimangos desfrutavam de uma vasta propriedade com fartura de guloseimas na casa que pertenceu o senhor Josias Gonçalves, na praça, (DORNAS, p.24) onde atualmente se encontra o edifício “Maria Tereza”.
Nesta “disputa santa” de quem fizesse a maior doação para as obras de ampliação da igreja, ganhou a família dos Coelho Duarte.  O padre Miranda – ainda assim - agiu com prudência abrindo uma porta de cada lado da Igreja Matriz, o que se observa ainda na atual. As obras de ampliação e reforma somente terminaram em 1875, estando à frente dos trabalhos da igreja o 4º pároco, Pe. Antônio Maximiano de Campos, que exerceu um longo e profícuo paroquiato por 39 anos na cidade de Itaúna. A pintura interna da igreja, foi realizada pelo artista Pedro Campos da cidade de Sabará, auxiliado por Antônio dos Santos – conhecido como Tonho do Bá e com as sucessivas reformas, desapareceram as pinturas do século anterior. (DORNAS, p.24)
No ano de 1916, constam grandes reparos nesta Igreja Matriz, realizados pelo Pe. João Ferreira Álvares da Silva e também em 1926, outras reformas pelo Pe. Cornélio Pinto da Fonseca.
Havia bem próximo à porta da Igreja Matriz um cruzeiro de madeira que fora erguido no dia 10 de agosto do ano de 1926 devido as comemorações das Santas Missões em Itaúna, proferidas pelos missionários Pe. Geraldo, Pe. Clemente e Pe. Chrysostomo, “durante 12 dias com muito fruto espiritual” (TOMBO, 13v).  No mesmo ano, o Papa Pio XI publicava uma Encíclica sobre os trabalhos das missões, o Rerum Ecclesiae, promovido pela Pontifícia Obra de Propagação da Fé (ZENIT).
Nestes dias de missões, os trabalhos foram intensos e os resultados, satisfatórios; sendo realizadas: 12.080 comunhões, 4.110 confissões e três casamentos.  O Pe. Cornélio Pinto da Fonseca, que era o 6º pároco de Sant’Anna, registrou no livro da paróquia, informando que muitas pessoas afastadas da prática religiosa confessaram com os missionários e passaram a frequentar a igreja novamente. O encerramento das missões se deu no dia 22 de agosto de 1926, com uma procissão de 5 mil fiéis aproximadamente, os homens percorreram as ruas ao derredor da Matriz conduzindo a cruz de madeira que havia sido benta pelo Reverendo Pe. Geraldo; enquanto isso, as mulheres ficaram esperando em frente da igreja.    
Não se descreve o espetáculo arrebatados que foi quando a Santa Cruz penetrou no Largo: palmas de todas as mãos, vivas calorosos e prolongados de todos os feitos bem fizeram sentir que Jesus com a sua Cruz redentora vive, reina e impera em todos os corações! Como memória perene daquele dia de Santas Missões, cá se conserva na Matriz o mesmo Madeiro da Cruz dirá às gerações vindouras os seus triunfos nos corações de Itaúna (TOMBO, 13V, 14)
Neste mesmo ano, o Pe. Cornélio realizava uma “remodelação da Matriz”, alegando que a igreja estava em condições miseráveis e necessitando de reparos urgentes, cujo, os valores gastos com a remodelação, ultrapassaram os 6 mil contos de réis. (TOMBO, p.14)
Em 27 de abril de 1928, chegava à paróquia de Sant’Anna, o 7º pároco, Pe. José Joaquim Batista de Queiroz, que havia deixado a freguesia da Piedade do Paraopeba e que iria substituir o Pe. Cornélio, que havia sido nomeado vigário da Catedral da Boa Viagem em Belo Horizonte. O novo pároco, ao iniciar seus trabalhos registrou no livro de Tombo, ótimas notícias, disse que não encontrou dificuldades para dar seguimento ao trabalho deixado pelo Pe. Cornélio, graças ao bom desempenho e organização deixados pelo pároco junto as associações: de sessões para os homens, sessões para mulheres, Cruzada Eucarística, Sagrada Família, obra das Vocações Sacerdotais, entre outras, sendo todas muito animadas e com grande fervor nas práticas dos ensinamentos. Sobre a situação da igreja Matriz, o Pe. Queiroz informou que: embora pobre e velha, a igreja estava conservada, todavia, estava por demais pequena para a população (TOMBO, p.17,17v).
Consoante as determinações do Revmo. Dom Antônio Santos Cabral, no dia 2 de fevereiro de 1931, tomava posse na freguesia de Sant’Anna de Itaúna, o 8º pároco, o Revmo. Pe. Inácio Fidelis Campos, cuja função antes, era de Coadjutor na cidade de Pará de Minas. Neste mesmo ano, no dia 1º de maio, chegava também o Revmo. Pe.  Ubaldo Anselmo da Silveira, designado pelo Arcebispo para ser Capelão da Santa Casa (antigo Hospital), sendo muito bem recebido pelas Irmãs e internos do local (TOMBO, p.25).    
Sobre o estado de conservação da igreja matriz, o Pe. Inácio informou: “urge a construção de um novo templo para satisfazer as exigências espirituais da paróquia. O estado de conservação da atual matriz é deplorável, comporta muito mal o povo e destoa completamente do conjunto da cidade” (TOMBO, p.25v).
            A 1º de abril de 1934, o pároco, Pe. Inácio Fidelis Campos achando precário o estado de conservação da igreja matriz, que ameaçava ruir, nomeou uma comissão para resolver a questão. Esta comissão ficou assim formada: Presidente honorário, Dr. José Gonçalves de Souza; Presidente: Dona Maria de Souza Moreira; Vice-presidente: José de Cerqueira Lima; Primeiro Secretário: Dr. Augusto Gonçalves; Segundo Secretário: Mardocheu Gonçalves; Tesoureiro: João de Cerqueira Lima. Achou-se por bem demolir a velha matriz; uma vez que que vinha desde 1853 passando por várias reformas, sem se obter um resultado satisfatório (Tombo, p.34).
            No dia 08 de abril, às 10 horas, foi realizada a transladação das imagens para a recém construída capela Imaculada Conceição (1930) e o Santíssimo Sacramento foi levado para a capela do Rosário, que curiosamente, voltava a funcionar como a Matriz até a conclusão das obras.  A igreja foi limpa e sua chave entregue ao tesoureiro para dar prosseguimento aos planos de demolição. Ainda no ano de 1934, uma sala do solar dos Cerqueira Lima, na rua Silva Jardim esquina com rua Arthur Bernardes (hoje rua Prof. Francisco Santiago) ficou servindo como capela provisória; bem como o antigo Teatro Municipal, na praça da Matriz (TOMBO, p.34, 37v).
Em artigo para uma revista, o Monsenhor Hilton Gonçalves de Souza, expressou sua indignação sobre o não cumprimento de acatar o projeto original da planta dos arquitetos Raffaelo Berti e Luiz Signorelli, o qual, denominou a construção de “aleijão arquitetônico" da nova matriz -  que é, salvo engano – uma deturpação da planta de Signorelli! ” (ACAIACA, p.155). Segundo informa o Dr. Miguel Augusto Gonçalves de Souza, com a demolição da antiga matriz e a construção da nova, provocou um certo descontentamento nos fiéis, cuja situação,“por determinado espaço de tempo, não muito curto, a comunidade deixou de possuir sua matriz e os cultos religiosos passaram a ocorrer em imóveis não adequados”, contudo, o Dr. Miguel defende a atual construção dizendo que: “não se pode por outro lado, considerar-se “aleijão arquitetônico” a atual Matriz de Santana, com suas linhas clássicas, sóbrias e funcionais como recomendado pelos jesuítas, desde os tempo do grande Manoel da Nóbrega (SOUZA, p.512).
No ano de 2000 foi lançado o livro “Raffaello Berti:projeto memória”, obra póstuma do filho Mario Berti, em comemoração ao centenário de seu pai, contendo seus principais projetos arquitetônicos realizados ao longo de sua carreira profissional, cujo edição, traz uma cópia da planta original da atual Igreja Matriz.     
O Pe. José Ferreira Netto chegou a conhecer a velha matriz no ano de 1930, ao visitar em Itaúna um colega de seminário, afirmava que, sua porta principal deveria ser à altura do  púlpito, ou seja, corresponderia a quase a metade do atual templo. O Dr. Miguel Augusto Gonçalves de Souza, fundador da Universidade de Itaúna, deixou o registro de sua infância, ao se lembrar da demolição da velha matriz em 1934, quando ao cair das grandes toras de madeira, o levantar-se de nuvens de poeira na praça.
O historiador João Dornas na sua argúcia de pesquisador, não deixou também de escrever sobre as “Lendas e Tradições” de Itaúna, as quais, fazem parte da construção da história de um povo.  Dornas (p.99) diz que: “numa das torres da velha matriz existia um galo de lata, de significação litúrgica. Se caso esse galo, por efeito do vento, voltava o bico para o lado do cemitério, grandes mortandades se verificavam na cidade...”.
O sino grande desta velha igreja encontra-se hoje no Museu Municipal “Francisco Manoel Franco”, com o brasão do Império do Brasil nele grafado.
O pensamento ou a ideia de historicidade ajuda a perceber a ação humana através dos tempos e a reconhecer o passado, porque, ele fornece elementos para entender o presente. Com isso, a História passa a fazer parte de nossas vidas, porque somos seu sujeito e a transformamos; e seu objeto, porque ela própria nos modifica (BOSCHI, p.10,11).



 REFERÊNCIAS:

- AGENZIA FIDES: Órgão de Informações das Pontifícias Obras Missionárias desde 1927. Disponível em:  < http://www.fides.org/pt/news/60879-VATICANO_Outubro_Mes_Missionario_e_90o_Dia_das_Missoes#.WIE8efkrKUk > Acesso em: 19/01/2017.

- BERTI, Mário (Obra Póstuma). Raffaello Berti: projeto memória, BH, AP Cultural, 2000.

- BOSCHI, Caio César. Porque estudar História? São Paulo, Ática, 2007.

- FILHO, João Dornas. Itaúna: Contribuição para a história do município, 1936.

- LIVRO DO TOMBO: Paróquia de Sant’Anna de Itaúna -  15/09/1902 a 31/12/1947.

- Paróquia Sant’Anna Itaúna. Disponível em: < http://www.paroquiadesantana.com.br/site/index.php/2015-12-01-14-05-07/galeria-de-parocos >. Acesso em: 19/01/2017.

 - Revista Acaiaca, Org. Celso Brant, BH,1954.

- SOUZA, Miguel Augusto Gonçalves de. ITAÚNA: sua trajetória política, social, relisiosa, econômica e cultural, desde a criação do Arraial de Santana do São João Acima, em 14 de outubro de 1765, até a data do centenário de instalação do município: 1765-2002. BH: Santa Clara, 2002.

- ZENITE: O mundo visto de Roma. Disponível em: < https://pt.zenit.org/articles/jornada-internacional-das-missoes-uma-genial-intuicao-de-pio-xi/ >. Acesso em: 19/01/2017.

- Fotografia: Acervo Paróquia de Sant' Anna de Itaúna / Restauração: Charles Aquino


PESQUISA E ELABORAÇÃO:

- Charles Aquino, graduando em História, 7º período, UEMG/Divinópolis/ MG.
- Historiador Escritor Professor Luiz Mascarenhas, Bacharel em Direito / Licenciado em História pela Universidade de Itaúna/MG. 

quarta-feira, janeiro 11, 2017

Velha Matriz de Itaúna



Esta pesquisa objetiva divulgar algumas páginas da história de Itaúna, em parte quase desconhecidas ou esquecidas!
 No local onde hoje se encontra a Igreja Matriz de Itaúna, “foi construída em 1840 a capelinha da Senhora do Rosário que os pretos edificaram em horas de folga”. (DORNAS, p.22).   Através da Resolução de nº 209 do dia 7 de abril do ano de 1841, era criada a Paróquia de Sant’Anna, sendo o seu primeiro pároco, o Padre Antônio Domingues Maia, importante lembrar que, até no ano de 1853, a Capela de Sant’Anna (hoje Igreja do Rosário) era a Igreja Matriz e que depois desta data, o terceiro pároco, Pe. João Batista de Miranda realizou a permuta das capelas: a Matriz passaria para baixo na praça dr. Augusto Gonçalves, ficando a Capela do morro para Nossa Senhora do Rosário.
O padre João Batista de Miranda, iniciou a ampliação da Matriz em 1854, com a ajuda de pessoas do arraial, em sua maioria grandes fazendeiros. No decorrer da construção, houve um desentendimento entre os colaboradores. “Acontece, porém, que cada um dos fazendeiros queria a porta principal voltada para o lado da sua fazenda e isso constituiu um impasse insolúvel na época, que fez paralisar por dois anos as obras já iniciadas” (DORNAS, p.22). Nesta “querela santa”, o padre Miranda propôs uma condição: aquele que mais fizesse doações para as obras, a igreja seria voltada para o seu lado. A família dos Coelho Duarte ganhou a disputa, todavia, o padre Miranda foi prudente e para que todos ficassem satisfeitos, “fez abrir de cada lado uma porta, o que a nova matriz também conservou”. (DORNAS, p.24) 
Na década de 1954, o Monsenhor Hilton Gonçalves de Souza, escreveu um artigo: “Itaúna e seus Vigários”, relatando sobre a história religiosa da paróquia e de seus párocos, do período de 1841 até 1943, dizendo que, “graças a Deus, neles, Itaúna sempre teve exemplo de moderação e de virtudes, frequentemente admiráveis” (ACAIACA, p.153). O Monsenhor diz que, esta história poderia ser dividida em dois períodos distintos – o Antigo e o Novo.
Sobre o “período novo”, segundo nos informa o Monsenhor Hilton, inicia-se a partir do ano de 1924 com o Padre Cornélio, o qual, foi o 6º pároco de Itaúna.
Com o Pe. Cornélio Pinto da Fonseca, abre-se um período novo, segundo período. Colocou - o Deus em Itaúna, com a missão de realizar, na Paróquia uma transformação formidável. Cabe-lhe a glória de ter rasgado, aos olhos do povo, um quadro novo, um cenário realista – de mostrar-lhe a religião como alguma coisa séria, que envolve toda a nossa existência e criar, de fato, uma vida cristã, na Paróquia. Por isto mesmo, creio eu, foi o maior de todos os vigários de Itaúna, o que realizou trabalho mais difícil – vencendo preconceitos, destruindo uma mentalidade secularmente errada.  Não vai isto em desdouro dos grandes sacerdotes que lhe seguiram o caminho. Mas foi ele o iniciador e o realizador desta obra admirável.
Vivo, espirituoso, alegre, sabia compreender e amar o povo. Não se enquadrava nos ângulos apertados do rigorismo - mas era cioso dos direitos e dos interesses da Igreja. Fundou associações religiosas, remodelou as existentes, organizou o serviço religioso e criou, em Itaúna, um círculo de admiração e de amizade, que só desaparecerá, quando se extinguirem as gerações que lhe aprenderam exemplo de virtudes e receberam os seus admiráveis ensinamento. (ACAIACA, p.154)
No dia 7 de outubro de 1924, chegava em Itaúna o Pe. Cornélio Pinto da Fonseca sendo o coadjutor do Pe. João Ferreira Álvares da Silva, quinto padre da Paróquia de Sant’Anna. O Pe. João Ferreira, desejava trabalhar na Santa Casa de Itaúna e fazendo um pedido ao Bispado de Belo Horizonte, foi prontamente atendido seu desejo (TOMBO, p.7v). 
Dom Antônio dos Santos Cabral.
Por mercê de Deus e da Santa Fé Apostólica, Bispo de Belo Horizonte. Aos seus esta Provisão virem, Saudações, Paz e Bênçãos no Senhor.
Fazemos saber que, atendendo nós ao bem espiritual do rebanho que pela Divina Misericórdia, foi confinada à nossa pastoral solicitude e querendo que os fiéis da Paróquia de Itaúna deste nosso Bispado não fiquem privados de pastor que zele de sua eterna salvação: Havemos por bem prover, como pelo presente nossa Provisão, faremos na recuperação de Vigário Encomendado dessa Igreja, com as faculdades ordinárias por tempo de um ano se antes não determinarmos o contrário, ao Pe. Cornélio Pinto da Fonseca, servirá este cargo com convêm ao serviço de Deus e aos bens das almas de seus paroquianos ... (TOMBO, p.7v).
O Pe. Cornélio Pinto da Fonseca, no dia 8 de dezembro de 1924 era nomeado pároco da paróquia de Sant’Anna de Itaúna e o Pe. João Ferreira Álvares era nomeado capelão da Santa Casa de Itaúna.  Por ocasião desta posse, o Pe. Cornélio elaborou um Inventário da Igreja Matriz:

DESCRIÇÃO                                                                                                                    MATERIAL                QUANTIDADE
Almofadas

2
Almofadas decentes

2
Altar da Imaculada Conceição

1
Altar de São Vicente

1
Altar do Sagrado Coração de Jesus

1
Alvas[1] de missa

9
Âmbula[2]

1
Amito

17
Andores

2
Armário grande
Madeira
1
Armário pequeno
Madeira
1
Aureolas
Folhas Flandres
2
Aureolas[3] pequenas
Prata
2
Bancos velhos
Madeira
14
Banqueta de 6 grandes castiçais niquelados e 1 crucificado
Metal
1
Bilha
Barro
1
Cadeiras velhas
Palhinha
13
Caixas velhas

9
Cálice
Dourados
3
Cálice
Prata
1
Cálice dourado na Santa Casa

1
Cálices de Sacristia

2
Campainhas quebradas
Metal
2
Campainhas velhas em serviços
Metal
2
Camporaes

2
Capa asperges branca com o véu correspondente

1
Capa de asperges preta e velha

1
Capa de asperges[4] rica com o véu correspondente

1
Capa roxa

1
Capa roxa da Cruz

1
Capa verde de São João

1
Capa vermelha de São João

1
Castiçal pequeno
Madeira
9
Castiçal Niquelado médio
Metal
6
Castiçal Niquelado pequeno
Metal
12
Casula[5]verde conservada com estola, balsa e manípulos velhos

1
Cômoda grande
Madeira
1
Cômoda pequena
Madeira
1
Concha Batismal
Metal
1
Concha para hóstias
Madeira
1
Confessionários aberto

2
Corporaes

3
Crucificados
Madeira
1
Crucificados niquelados[6] 
Metal
2
Cruz para procissões
Metal
1
Custódia[7]

1
Dalmática[8]
Par
1
Dalmática duas cores
Par
1
Dalmática preta
Par
1
Estandartes velhos

7
Estantes de Côro

2
Estantes de missal velho

3
Estolas paroquiais imprestáveis

2
Ganchos

4
Genuflexórios velhos

3
Grande Caldeira de Água Benta

1
Grande Cruz
Prata
1
Guião branco de fazenda

1
Guião roxo

1
Guião Vermelho

1
Harmonium

1
Imagem de João Batista
Madeira
1
Imagem de Nossa Senhora pequena
Madeira
1
Imagem de Nossa Senhora pequena
Madeira
1
Imagem de Nossa Senhora da Conceição pequena
Madeira
1
Imagem de Nossa Senhora das Dores grande
Madeira
1
Imagem de Nossa Senhora de Lourdes
Carton-pierre[9]
1
Imagem de Nossa Senhora de Lourdes
Carton-pierre
1
Imagem de Nossa Senhora do Carmo
Madeira
1
Imagem de Nossa Senhora Sant’ Anna
Madeira
1
Imagem de Nossa Senhora Sant’ Anna pequena
Madeira
1
Imagem de Nosso Senhor Morto

1
Imagem de Santa Ignez
Carton-pierre
1
Imagem de Santo Anjo
Carton-pierre
1
Imagem de Santo Antônio
Madeira
1
Imagem de São Benedito pequena
Madeira
1
Imagem de São Francisco
Madeira
1
Imagem de São Geraldo
Carton-pierre
1
Imagem de São José
Madeira
1
Imagem de São Sebastião pequena
Carton-pierre
1
Imagem de São Sebastião pequena
Madeira
1
Imagem de São Thomaz
Madeira
1
Imagem de São Vicente pequena
Carton-pierre
1
Imagem do Espírito Santo
Madeira
1
Imagem do Menino Jesus pequena

1
Imagem do Sagrado Coração de Jesus grande
Carton-pierre
1
Imagem do Sagrado Coração de Jesus pequena
Carton-pierre
1
Jarras
Vidro
15
Jarras
Louça
12
Jarras
Vidro
5
Jarras 
Barro
2
Lâmpada do Santíssimo Sacramento
Vidro
1
Lâmpada do Santíssimo Sacramento pequena
Metal
1
Mesa nova

1
Mesa pequena

1
Mesas velhas

3
Missaes gasto
Livro
1
Missaes iprestáveis
Livro
5
Missaes novos
Livro
2
Missal[10] velho na Santa Casa

1
Opas

8
Oratório para Santos Óleos
Madeira
1
Pallio branco velho

1
Par de galhetas
Vidro
1
Paramento branco rico

1
Paramento antigo

1
Paramento branco estragado

2
Paramento branco-vermelho

1
Paramento conservado de 2 cores roxa e verde

1
Paramento preto novo

1
Paramento preto velho

1
Paramento roxo

1
Paramento verde estragado

1
Paramento vermelho

1
Paramento vermelho velho

1
Paramento vermelho velho

1
Paramento vermelho velho

1
Pedras d’ara[11] - Sacras velhas para 2 altares

4
Pequena Eça

1
Pequeno oratório do Sagrado Coração de Jesus

1
Pia Batismal 

1
Pia de água Benta
Pedra
1
Píxide pequeno para comunhões de enfermos

1
Pote
Barro
1
Pratinho de galhetas
Vidro
1
Púlpito conservado

1
Púlpito velho

1
Quadro de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro

1
Quadro de Nossa Senhora Sant’ Anna

1
Quadros da via-sacra

14
Relicário para Viático
Metal
1
Salva
Vidro
1
Sanguíneos[12]

19
Semana Santa (S.P.Q.R.)[13]
Bandeira
1
Singulos

4
Sinos

4
Sobrepeliz de coroinhas

4
Toalha de cabide pequena

6
Toalhas capas de altar

3
Toalhas de Altar-mor

17
Toalhas de cabide

3
Toalhas de mesa da comunhão

7
Tochas

4
Turíbulo
Metal
1
Turíbulo[14] velho

2
Umbela

1
Varas de Estandartes

12
Vaso velho para Santos Óleos

1
Velha escada

1
Velhos tapetes

2
Véu encarnado

1

No ano de 1926, o Pe. Cornélio fez um “Remodelamento da Matriz”:
A Matriz estava em condições nojentas e miseráveis. Com a graça de Deus e pela reforma completa que sofreu, tomou outro aspecto bem agradável. O telhado onde se alojavam milhares de morcegos foi todo removido e outra vez engessado; as paredes caiadas; as grades que no centro da Matriz formavam uma espécie de V foram suspensas como também 2 púlpitos à altura do côro nas paredes; no assoalho foi aplanado e aí colocados bancos; todas as figuras muito mal pintadas no forro e outros lugares foram cobertas por nova tinta a óleo. A importância deste gasto foi de 6:848$145 (seis contos, oitocentos e quarenta e oito mil e cento e quarenta e cinco réis) (TOMBO, p.14).
A grande virtude deste trabalho, foi a elaboração do inventário que o Pe. Cornélio realizou da Velha Matriz de Itaúna, com isso, temos mais informações sobre a história da nossa paróquia de Itaúna.


REFERÊNCIAS:
- FILHO, João Dornas. Itaúna: Contribuição para a história do município, 1936.
- Livro do Tombo da Paróquia de Sant’Anna de Itaúna -  15/09/1902 a 31/12/1947.
- Revista Acaiaca, 1954.
- Diocese de Divinópolis/Minas Gerais. Disponível em: <https://www.diocesedivinopolis.org.br/index.asp?c=padrao&modulo=conteudo&url=5213>.  
- Paróquia Sant’Anna Itaúna. Disponível em:< http://www.paroquiadesantana.com.br/site/index.php>.
 FOTOGRAFIAS:
- Instituto Cultural Maria Castro Nogueira/ Patrícia Gonçalves Nogueira 
COLABORADORES:
- Professor Marco Elísio Chaves Coutinho / Itaúna – Minas Gerais
-  Revmo. Pe. Professor José Raimundo Batista Bechelaine / Carmo do Cajuru -  Minas Gerais
PESQUISA E ELABORAÇÃO:
- Charles Aquino, graduando em História, 7º período, UEMG/Divinópolis – MG.



[1] Alva: Veste branca, longa e por vezes com tenda na barra. Traduz purificação, alegria, consagração ao serviço da Igreja.
[2] Âmbula (ou Cibório): A vasilha (de diversos formatos e tamanho e com tampa) que contém as Partículas (Hóstias Consagradas)
[3]  Algumas imagens de Santos, tinham aureolas ou Resplendor.
[4] Pluvial ou capa de asperges (latim: cappa, pluviale, casula processaria) é um paramento litúrgico usado sobretudo no exterior, mas também dentro das igrejas para bençãos e aspersões com água benta, casamentos sem missa e para os solenes ofícios divinos
[5] Casula: Veste sacerdotal igual a uma pequena capa que é usada sobre a alva (túnica) durante as celebrações. A cor da casula varia de acordo com o tempo ou circunstâncias litúrgicas: branca, verde, vermelha ou roxa.
[6] Niquelados: Revestidos de metal de níquel.
[7] Custódia: O mesmo que ostensório.  Uma peça de ourivesaria usada em atos de culto da Igreja Católica Apostólica Romana para expor solenemente a hóstia consagrada sobre o altar ou para a transportar solenemente em procissão.
[8] DALMÁTICA: Veste própria do Diácono. É colocada sobre a alva e a estola.
[9] -  Carton Pierre ("stone carton" em inglês) é uma espécie de arte de papier-maché (Papel machê), imitando escultura de pedra ou de bronze. Foi muito utilizado também como ornamento de colunas, portas e janelas internas, imitando basicamente pedra, substituindo o gesso.   Definição de carton pierre: um papier-mâché feito para imitar pedra ou bronze e geralmente usado para ornamentos estatutários e arquitetônicos.

[10] MISSAL: Livro Litúrgico que contém todo o formulário e todas as orações usadas nas celebrações da missa para todo o ano litúrgico.
[11]  D’ara:  Letra d, Apóstrofo, ara. Ara é a palavra latina para Altar. É uma pedra de formato quadrada, contendo relíquias de Santos no altar. No centro do altar, há uma pequena cavidade onde se coloca uma pedra, comumente de mármore, denominada, Pedra d'ara, que encerra dentro de si relíquias de santos mártires, recordando o costume primitivo cristão de celebrar o Santo Sacrifício sobre o túmulo dos mártires e suas preciosas relíquias. Durante a Missa, o cálice e a hóstia devem pousar sobre a pedra d'ara.
[12] SANGUÍNEO, SANGUINHO OU PURIFICATÓRIO: Pequeno pano de forma retangular utilizado para o celebrante enxugar a boca, os dedos e o interior do cálice, após a consagração. Pano retangular que serve para a purificação dos vasos sagrados (cálice, patena e ambulas).
[13]  Nas irmandades de Semana Santa aparecem estas siglas romanas (SPQR) nos estandartes com significado em latim: Senatus  Populos Que Romanus .
[14] Turíbulo: Vaso em que se queima incenso sobre brasas, em cerimônias especiais. É o mesmo que incensário ou incensório.